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postado em 07/10/2017 00:00
 (foto: Fabrice Coffrini/AFP)
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Pouco depois do anúncio do Comitê Nobel Norueguês, Beatrice Fihn, diretora executiva da Campanha Internacional para Abolir as Armas Nucleares (ICAN, em inglês), e Daniel H;gsta, coordenador de Rede da organização, falaram com exclusividade ao Correio, por telefone. Os dois ativistas relataram a emoção ante o Nobel da Paz, admitiram que a distinção pode intensificar a pressão sobre os países detentores de arsenais atômicos, enalteceram a importância do Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares e alertaram sobre o risco representado pelo regime do ditador norte-coreano, Kim Jong-un.

Como recebeu a notícia sobre o Nobel da Paz?
Beatrice ; Eu recebi um telefonema no escritório, poucos minutos antes do anúncio oficial. Foi muito emocionante. De verdade. Uma emoção ao máximo. Foi irresistível ser informada.
Daniel ; Nós recebemos o telefonema por volta das 10h45 (5h45 em Brasília).(risos) É claro que isso fez com que as emoções aflorassem. Foi um momento emocionante.

O que essa distinção representa para você e para a Ican? Qual o simbolismo do prêmio?
Beatrice ; Trata-se de uma conquista imensa para nós. Também é um reconhecimento do trabalho da sociedade civil em todo o mundo para alcançar um tratado de proibição das armas nucleares. Além disso, é um reconhecimento ao papel dos sobreviventes de Hiroshima e de Nagasaki.
Daniel ; Vejo isso como um claro reconhecimento de que o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares é o melhor futuro para o desarmamento. Ele traça um caminho claro para contrapor a narrativa da destruição humana que é disseminada pelos países detentores de armas nucleares. Nós vemos isso se intensificando entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte. Mas o tratado proíbe países menores de modernizar seus arsenais e de considerarem utilizá-los. É uma visão alternativa baseada na segurança permanente.

De que modo o Nobel da Paz pode contribuir com os esforços de não proliferação nuclear no mundo?
Beatrice ; Eu acho que o Nobel da Paz realmente vai intensificar a pressão sobre os países para que ajustem suas políticas sobre armas nucleares. Se eles forem sérios sobre o desarmamento nuclear, eles terão de rejeitar essas armas.

Quais foram as conquistas mais importantes da Ican até o momento?
Beatrice ; Nós conseguimos o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares no verão passado (em 7 de julho passado). Trata-se de um tratado histórico importantíssimo, que abriu a coleta de assinaturas em 20 de setembro, quando o presidente do Brasil foi a primeira pessoa a firmar o documento. Foi uma façanha enorme para a nossa campanha.
Daniel ; A Ican foi criada em 2007. Nós sempre pensamos que, no direito internacional, onde armas nucleares não são proibidas, enquanto outras armas de destruição em massa são ilegais, assim como munições cluster e minas terrestres, devemos pensar as consequências do uso de arsenal nuclear e retirá-las da sociedade civil e dos governos. O foco deve sair da dissuasão e se centrar na segurança. É preciso falar sobre as pessoas, sobre o que as armas nucleares representam para os humanos.

Qual é o perigo representado pelo programa nuclear norte-coreano e de que maneira a Ican está lidando com isso?
Beatrice ; Trata-se de um desdobramento bastante preocupante. Nós realmente pensamos ser inaceitável que um Estado ameace usar armas nucleares para construir e modernizar seus arsenais. Este tratado proíbe todos esses tipos de atividades. Acreditamos que o Nobel da Paz seja um forte sinal a todos os Estados nucleares, incluindo a Coreia do Norte. Isso é inaceitável!

Um mundo livre de armas nucleares é plausível, mesmo sabendo que EUA e Rússia detêm os maiores arsenais atômicos do planeta?
Beatrice ; Absolutamente. Eu penso ser algo possível. Já desistimos de outras armas. Nós deveríamos ser capazes de desistir também das armas nucleares.
Daniel ; O Nobel é um claro sinal de que este é o tempo certo para ações rumo ao desarmamento. Com o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares, que estabelece as bases de ação dos países, e com a atenção produzida pelo prêmio, o futuro parece mais brilhante para as próximas décadas. (RC)

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