Lençóis brancos

Lençóis brancos

» MARCELO COUTINHO Diretor do Observatório da Inteligência Artificial
postado em 04/12/2017 00:00

No mundo, há quem sobrevalorize o sexo, e os que o subvalorizam. Ambos infelizes. Os primeiros porque, escravos de seus hormônios, costumam ter sexo sem afeto duradouro; os segundos, em contraposição, afeto sem sexo, fingindo prazer para agradar a quem lhe está ao lado. Atente para o fato de que se fala aqui de afeto e não de amor romântico, posto que este último tem ao menos um predicado a mais. Diferentemente do afeto, que é livre como um pássaro, o amor é uma tensão permanente como imã que cola, vicia e, às vezes, até aprisiona.

Quando se encontram em opostos, os hiper e os hipossexuais saem frustrados. Afinal, os mais, digamos, sexualizados terão parceiros que não os acompanham nos prazeres da cama. Já os mais afetuosos enxergarão sempre um vazio existencial em pessoas que fazem do sexo o seu motivo de viver. Por outro lado, o casamento entre sexualizados corre grande risco de girar em torno da cama, bestializar-se como animais no cio, abdicando de muitas outras dimensões possíveis num relacionamento, enquanto a união entre afetuosos periga tornar a cama um divã. Há ainda o tempo, que tanto esfria o sexo, como monotoniza também o afeto.

Examinado dessa forma, parece que não resta muita saída, sobretudo para as sociedades de hoje que fazem do sexo a nova religião. Observe que nem sempre foi assim. Houve época em que o sexo era visto com maus olhos, como um pecado ou algo meio sujo. Só nas últimas décadas, com a maior liberalização, é que se pode dizer realmente que o sexo virou algo desejado e positivo. Quem não faz sexo ou faz pouco agora é que deveria rever seu comportamento. Se no passado queimavam as bruxas e empalavam os sexualizados, atualmente os olhares de esquisitice se voltam contra os afetuosos, pois eles se tornaram o novo estranho em sociedades de solidariedade provisória sobre as quais tenho falado muito.

Os movimentos religiosos de restauração de valores que aqui e acolá eclodem se parecem mais com ações violentas de resistência do que de retorno civilizatório. São acessos de fúria que em nada se confundem com a divisão entre sexualizados e afetuosos, nem hoje nem no passado medieval. A propósito, essa dicotomia é um tanto artificiosa e superficial. Sexualizados podem se tornar afetuosos e vice-versa, ainda que tudo isso pareça um tanto misterioso. Na modernidade líquida, ninguém está determinado a ser uma coisa só por toda a vida e em todas as relações. Ao contrário. Mas em vez de resolver os desencontros, isso tem exposto ainda mais o problema.

No Oriente, dezenas de milhões de pessoas estão apaixonadas por uma robô virtual, com quem eles conversam e se aproximam até criar laços afetivos que só se imaginaria até então possíveis entre humanos. A versão feminina é a mais popular, mas também tem a versão masculina de chatbots. Cada vez mais sozinhas e com dificuldade de se relacionar, as pessoas procuram a inteligência artificial primeiro para passar o tempo e, depois, para preencher um buraco sentimental interior. O sexo virtual com a máquina também acontece, embora a razão principal para esta relação tenha mais a ver com a solidão do que com a luxúria propriamente.

No Ocidente, por sua vez, chegou ao mercado de vendas uma robô humanoide sexual que conversa até sobre filosofia. Tudo para agradar ao cliente. Ainda que essa inteligência artificial em forma de gente possa servir também como substituta para a afeição e companhia, cumpre mais um papel libidinoso mesmo. É preparada para satisfazer os desejos da carne humana, sem pudores nem convenções sociais. Uma espécie de nova escrava sexual que poderá ser comprada pela classe média e alta, ou prostituída em casas especializadas. A boneca inteligente foi inspirada nas antigas cortesãs europeias e gueixas japonesas.

Esses são apenas alguns casos que podem apontar para onde caminham as sociedades no século 21 em matéria de sexo e afeto. Essas inteligências artificiais desempenham funções decorrentes de profundas mudanças nas relações sociais que deixam as pessoas cada vez mais conectadas na internet, mas, ao mesmo tempo, isoladas umas das outras em termos reais. Tanto o sexo quanto o afeto se tornaram também passageiros fugazes da mesma agonia que aflige os indivíduos. Uma das consequências disso é o aumento do sexo por interesse, isto é, as pessoas estão transando mais porque têm maior liberdade, mas também porque usam o sexo para sua estabilidade emocional, financeira e até fisiológica. No final, é só trocar os lençóis brancos e continuar (sobre)vivendo.

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