BOCAOCA (III-FINAL)

BOCAOCA (III-FINAL)

Márcio Cotrim marciocotrim@facbrasil.org.br www.marciocotrim.com.br
postado em 06/01/2018 00:00
Hoje termina a série, mas ela bem que poderia estender-se por meses a fio, tal a catadupa de sandices que continuam a ser repetidas por aí.

No campo religioso, pergunte a algum fiel se ele sabe o que significa sua contrita devoção nos dias de Corpus Christi e Pentecostes. Duvido que conheça com exatidão o sentido dessas duas importantes datas do catolicismo. Mesmo assim, segue a procissão fervorosa, todo mundo reverenciando o desconhecido, não é espantoso?

No terreno das coisas mundanas, curioso eufemismo é dizer, por exemplo, que Fulana ;tirou a parte superior do biquíni e praticou o topless;. Ora, que ridículo! Por que não dizer que ela tirou o sutiã ; não é assim que se chama essa peça? E que ela exibiu os seios ; não é assim que eles são conhecidos desde Eva?

Outro dia eu escutava no rádio certo figurão deitando falação sobre o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, como se fosse possível existir alguma pessoa literalmente desumana! É hora de corrigir esse nome impróprio, senhores do governo!

A mesma CBN é useira e vezeira em divulgar as revistas da Editora Globo - ;et pour cause;, Pois bem, toda manhã, enquanto faço minha caminhada com o radinho ligado no ouvido, escuto uma torrente de anúncios de Marie Claire, Criativa, Pequenas Empresas Grandes Negócios e outras revistas, todas com mensagem publicitária muito parecida. Num diálogo, uma pessoa faz a apologia da revista, desfia seus méritos editoriais, deixa o ouvinte deslumbrado com tantas qualidades. Aí a outra pessoa pergunta: - Mas a assinatura de Marie Claire deve ser muito cara.. Responde a primeira: - Imagina! Você pode pagar em três vezes, e no cartão. Fica o ouvinte sem saber se, afinal, a assinatura é cara ou barata!

E por falar em publicidade, que dizer dos anúncios das meias Vivarina que passam toda hora na TV? Aparece uma mulher monumental, pernas sensualíssimas generosamente expostas ; e, naturalmente, vestidas de Vivarina. Aí, começa a demonstrar a resistência dos fios da meia. Puxa, repuxa, estica, passa um garfo em cima, deixa um gato arranhar enfim, faz misérias com a meia e ela não desfia, não estraga. Quer dizer, mostra-se praticamente indesfiável, invulnerável.

Nessa altura, a telespectadora deve estar convencida de que ao comprar um par de Vivarina ; apenas um ; terá meia para o resto da vida. É o único raciocínio possível depois de tão eloqüente demonstração de resistência. Mas, oh, surpresa! O anúncio informa que a meia é vendida pelo reembolso postal em pacotes de quatro pares! Quanta empulhação!

Outra vacuidade bucal é dizer que ;eu, pessoalmente;, acho isso ou aquilo de alguma coisa ou de alguém. Claro, pois fica difícil achar alguma coisa impessoalmente. Talvez os robôs; Da mesma forma, todo santo dia escutamos gente falando homéricas bobagens como ;houveram; muitas pessoas na festa de ontem, ;fazem; seis anos que ela se foi, que fulana estava ;meia; cansada, que o Exército ;interviu; no conflito, um desfile de bobagens que nos faz refletir, com inquietação, sobre o destino do idioma pátrio.

Às vezes, pessoas conhecidas se descuidam e entram pelo mesmo cano. Nosso querido Luiz Gutemberg, por exemplo, não se cansa de falar em ;frustação; pela Rede Bandeirantes e Leonel Brizola repete, há anos, a palavra interesse com o e aberto: ;interésse;, equívoco inexplicável num político experiente como ele.

Também se fala muito em Dia de Finados para designar a data que homenageia aqueles que já passaram desta para a melhor. Não seria mais adequado comemorar o Dia dos Mortos ou o Dia da Saudade? Alguém, em sua linguagem habitual, diz ;finados;?

Da mesma forma, fala-se a esmo em ;tempo récorde;. A obra ficou pronta em tempo récorde. A equipe bateu o récorde para concluir o trabalho. Chegamos em tempo récorde. Mas como? Para se falar em récorde é preciso que haja marca anterior, algum parâmetro que permita avaliar ou medir o desempenho e só então rotulá-lo de récorde, sem o que a expressão deixa de ter sentido.
E por falar em falar de sentido, por que a Símdrome de Imuno-Deficiência Adquirida (SIDA) é chamada, no Brasil, de AIDS (Acquired Imuno-Deficiency Syndrome)? Mais uma demonstração de macaquice em relação aos americanos;

E que tal a expressão ;um direito que me assiste;, forma perfeitamente pateta de se referir ao direito que o cidadão tem ou possui, não é mesmo? Igualmente, por que se afirma que alguém deu ;o braço a torcer; em vez de, simplesmente, dizer que alguém cedeu? Não é mais simples e lógico?

Também me parece muito estranho dizer que alguém faleceu de parada cardíaca. Não é sempre assim que morremos, não é quando pára o coração? - ou será que algum defunto continua com o coração batendo?

Há os que, em entrevistas de rádio ou TV, não sabem o que falar e ficam num ;É; é; é; que provoca náusea no telespectador. Pior é que muitas vezes, depois de tanta hesitação enchem a boca para dizer: ;Eu afirmo de que; ou ;Eu declaro de que;Positivamente, é hora de mudar de canal;

Aqui interrompe essa série de observações colhidas no quotidiano. Tolices orais que assolam nossos ouvidos e que continuarão a ser pronunciadas por muita gente pelos campos, serras, biroscas e botecos do Chuí ao Curuí. Nada a fazer, apenas registrar com bom humor. Talvez deixe algum benéfico efeito didático. Que outro resultado poderia pretender um simples cronista?

Quanto a considerar o Brasil tri-campeão mundial de futebol (quá, quá, quá) e torcer por um boboca e equivocado tetra-campeonato, nem vale a pena comentar. Vana verba!

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