Battisti: da Bolívia à prisão perpétua

Battisti: da Bolívia à prisão perpétua

Italiano chega a Roma para cumprir prisão perpétua depois de ser detido em Santa Cruz de la Sierra. Condenado por quatro assassinatos, ele foi expulso da Bolívia por ter entrado ilegalmente no país. Brasil chegou a enviar avião da PF

Alessandra Azevedo
postado em 14/01/2019 00:00
 (foto: Bolivian Police / AFP

)
(foto: Bolivian Police / AFP )


O italiano Cesare Battisti chega hoje ao centro de detenção de Rebibbia, próximo a Roma, onde cumprirá a pena de prisão perpétua estipulada pela Justiça italiana, depois de condenado pelo assassinato de quatro pessoas nos anos 1970. E, assim, encerra uma novela inciada ainda 1979, com a primeira detenção em Milão.

Considerado foragido desde 14 de dezembro do ano passado, quando teve a extradição autorizada pelo então presidente Michel Temer, o ex-ativista de esquerda foi capturado no início da noite de sábado, em Santa Cruz de La Sierra, maior cidade da Bolívia, a cerca de 850km da capital La Paz.

Battisti foi detido por uma equipe da Interpol ; formada por agentes federais ; em parceria com a polícia local, enquanto caminhava sozinho por uma rua. De cavanhaque e óculos escuros, ele carregava apenas documentos brasileiros e 10 bolivianos (o equivalente a 1,40 dólar).

A pedido da Itália, o governo boliviano expulsou Battisti do país, onde estava morando de forma ilegal, após uma tarde de dúvidas sobre a melhor forma de extradição. O ex-militante de esquerda embarcou em avião italiano direto da Bolívia ao Aeroporto de Ciampino, em Roma, onde deve chegar pela manhã (horário da Brasil). O voo partiu do Aeroporto Internacional Viru Viru, em Santa Cruz de La Sierra, por volta das 19h de ontem.

O governo brasileiro se ofereceu para transportá-lo em uma aeronave da Polícia Federal, com uma possível parada em Corumbá (MS) ou em Brasília, mas a decisão final foi pelo voo direto. A PF chegou a enviar um avião à Bolívia, devido à ;urgência da situação;, no início da tarde, embora policiais e integrantes dos serviços secretos da Itália já estivessem a caminho do país. Além deles, havia uma equipe especial da polícia italiana em Santa Cruz de La Sierra desde pouco antes do Natal, após receber dicas de informantes sobre o paradeiro de Battisti.

A decisão do trajeto foi anunciada oficialmente pelo ministro boliviano de Interior, Carlos Romero, em entrevista coletiva na sede da Interpol em Santa Cruz no fim da tarde, para pôr fim às especulações sobre possíveis paradas no Brasil. O premiê italiano, Giuseppe Conte, já havia publicado a informação no Facebook.

As autoridades brasileiras confirmaram a decisão no início da noite, em nota conjunta divulgada pelos ministérios das Relações Exteriores e da Justiça, na qual se ;congratularam com as autoridades bolivianas e italianas e com a Interpol pelo desfecho da operação de prisão e retorno de Battisti à Itália;.

Colaboração

O importante, segundo o governo brasileiro, é que Battisti ;responda pelos graves crimes que cometeu;. No Facebook, o premiê italiano disse estar ;muito satisfeito; com o resultado ;que nosso país espera há muitos anos; e citou pessoalmente o presidente Jair Bolsonaro, com quem conversou pelo telefone, nos agradecimentos. O ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini, também agradeceu o presidente brasileiro e chamou o fato de ;um grande presente a 60 milhões de italianos;. O ministro da Justiça italiano, Alfonso Bonafede, ressaltou que as autoridades da Bolívia colaboraram ;plenamente; para a extradição de Battisti.

Bolsonaro parabenizou os responsáveis pela prisão e aproveitou a ocasião para criticar novamente o Partido dos Trabalhadores. Em mensagem publicada no Twitter, disse que ;finalmente a justiça será feita ao assassino italiano e companheiro de ideais de um dos governos mais corruptos que já existiram do mundo (PT);. Em novembro do ano passado, o embaixador da Itália no Brasil, Antonio Bernardini, tratou sobre o caso Battisti em visita a Bolsonaro, então candidato à Presidência. Durante a campanha presidencial, ele garantiu que extraditaria o italiano.

No início da tarde de ontem, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, disse que o presidente ficou feliz com a prisão de Battisti e negou que ele estivesse ;capitalizando; a extradição. ;Não quer capitalizar nada. Quer botar para fora um bandido;, afirmou, após reunião com o presidente no Alvorada para tratar do assunto.

Defesa
Embora esteja impossibilitada de atuar no caso, já que Battisti estava na Bolívia, a defesa do italiano recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) para que suspendesse a decisão do ministro Luiz Fux, feita em 2018, que autorizou a extradição do italiano.

De plantão no recesso do Judiciário, o presidente da Corte, Dias Toffoli, negou o pedido, alegando que não cabe habeas corpus contra decisão de ministro do STF. ;Nego seguimento ao presente habeas corpus, por ser flagrantemente inadmissível e, ainda, por contrariar a jurisprudência predominante desta Suprema Corte;, afirmou Toffoli, no despacho. De qualquer forma, como Battisti foi preso por ordem da Justiça italiana, e não brasileira, o pedido dos advogados de Battisti ao STF não teria efeito.

;Finalmente a justiça será feita ao assassino italiano e companheiro de ideais de um dos governos mais corruptos que já existiram do mundo (PT)
Jair Bolsonaro, presidente do Brasil

Linha do tempo
Os principais momentos de Battisti desde a primeira prisão:

1979
Cesare Battisti é preso, em Milão, suspeito do assassinato de um joalheiro. Ele participava do grupo guerrilheiro Proletários Armados pelo Comunismo (PAC)

1981
É condenado a 12 anos e 10 meses de prisão por ;participação em grupo armado; e ;ocultamento de armas;. Escapa da prisão e se refugia na França


1982
Foge para o México. Lá, passa a ser colaborador de vários jornais, funda uma revista literária e organiza a Bienal de Artes Gráficas


1985
Presidente francês François Mitterrand se compromete a não extraditar os ex-ativistas de extrema-esquerda italianos que abandonarem a luta armada

1990
Battisti vai para a França e começa a escrever romances policiais

1991
França nega pedido italiano de extradição


1993
Battisti é condenado à prisão perpétua, sob a acusação de ter cometido quatro assassinatos na Itália na década de 1970 contra um guarda carcerário, um agente de polícia, um militante neofascista e um joalheiro. Ele nega envolvimento nos homicídios e se diz vítima de perseguição política

2002
Itália pede extradição de Battisti ao governo francês


2004
Justiça francesa decide pela extradição. Battisti é detido em Paris, em meio a protestos de esquerda. Decisão é seguida por discussão jur

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação