Perigo pesado em dose dupla

Acidentes com retroescavadeira na Contorno, em BH, e com carreta na Fernão Dias expõem a dificuldade do controle do tráfego de veículos de carga para evitar abusos e transtornos

Guilherme Paranaiba
postado em 19/02/2014 00:00
 (foto: EDÉSIO FERREIRA/EM/D.A PRESS)
(foto: EDÉSIO FERREIRA/EM/D.A PRESS)



Dois acidentes causaram transtornos gigantes. O primeiro em plena Avenida do Contorno, no Bairro Funcionários, Centro-Sul de BH, onde um motorista abusou da imprudência numa via onde não poderia circular ao tentar subir o tobogã com um caminhão carregado com uma retroescavadeira. Ele fugiu depois que a máquina caiu no asfalto e deu muito trabalho para ser retirada. Na Fernão Dias, em Betim, o tombamento de uma carreta de cimento deixou pistas fechadas durante 24 horas e causou congestionamento de mais de 10 quilômetros, demonstrando que mesmo em rodovia privatizada a desinterdição em caso de acidentes é problemática.

O acidente na Contorno assustou moradores e pedestres no início da manhã de ontem. A retroescavadeira caiu da carroceria do caminhão e ficou escorada em uma palmeira, quase na esquina com a Rua Piumhi. Ninguém ficou ferido e nenhum veículo foi atingido. O acidente chama a atenção para o controle dos veículos pesados em áreas restritas da cidade. No ano passado, a Polícia Militar, a Guarda Municipal e a BHTrans autuaram 477 motoristas de caminhões, uma média de 1,3 veículo por dia transitando em local proibido. Somente ontem, enquanto guardas municipais trabalhavam na ocorrência da retroescavadeira, 10 caminhões foram autuados em flagrante no tobogã da Contorno. Além da imprudência dos motoristas de carga pesada, a fiscalização insuficiente, feita por radar apenas na Avenida Nossa Senhora do Carmo, contribui para aumento de risco de acidentes.

No trecho do acidente, a BHTrans proibiu 24 horas por dia o trânsito de veículos com capacidade acima de 5 toneladas ou com mais de 6,5 metros de comprimento, o que agravaria a situação do motorista que fugiu do local após a queda da máquina pesada. Mas, como ele não apareceu, nem a multa por ;transitar em locais e horários não permitidos pela regulamentação estabelecida pela autoridade competente;, conforme prevê o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), foi aplicada.

O tenente-coronel Edvaldo Piccinini, comandante do Batalhão de Trânsito da PM (BPTran), explicou que só é possível autuar se o caminhão for flagrado por uma autoridade de trânsito habilitada para multar. O militar admite que só o peso da máquina já supera a capacidade permitida pelo trecho, mas sem o flagrante não há multa. Segundo o Departamento Estadual de Trânsito de Minas Gerais (Detran), a Polícia Civil só investiga casos com vítimas, o que significa que o motorista infrator ficará impune.

Piccinini não concorda que haja falhas na fiscalização. Ele afirma que é impossível manter um militar do batalhão em cada trecho com restrição para veículos pesados, uma vez que o BPTran tem inúmeras atribuições e só de ocorrências de trânsito atende cerca de 200 por dia. ;A melhor solução seria investir na fiscalização eletrônica, como já acontece na Avenida Nossa Senhora do Carmo;, afirma o tenente-coronel.

FLAGRANTE Em 2013, 158 caminhões com capacidade acima de 5 toneladas ou comprimento acima de 6,5 metros foram flagrados pelo radar da via. Nos demais corredores e áreas restritas, PM e Guarda Municipal registraram 319 infrações em todo o ano passado. Este ano, as duas corporações já anotaram 57 multas, todas referentes a janeiro.

O gerente de trânsito da Guarda Municipal, José Anísio Pereira Júnior, admite que a fiscalização dá margem para os infratores e que isso acontece porque nem todos se submetem aos caminhos corretos por conta da maior distância percorrida. ;Eles aproveitam as brechas e encaram imaginando que não serão pegos. Estamos em uma época com muitas obras em BH, o que aumenta a demanda dos caminhões pesados;, diz. Ele completa lembrando que a Guarda Municipal está atenta ao problema e analisa rotas usadas pelos infratores para autuá-los. ;No caso de ontem, vamos analisar de onde veio esse caminhão, para inibir novos desrespeitos;, afirma.

Para retirar a retroescavadeira foram necessários dois reboques pesados da BHTrans. Ambos tiveram que passar por cima do canteiro central, o que causou danos no passeio e no jardim, mas a empresa informou que fará os reparos. Nas ruas, a reação da população foi de susto. ;Isso aí é lugar de subir?;, questionou a dona de casa Loide Missias Resende Claussen, de 58 anos. ;O cara que sobe uma avenida dessa com esse peso não tem cabeça;, afirmou o técnico em edificações Juliano Vieira, de 37.

O fazendeiro Demerval Guimarães se apresentou como tio do dono da escavadeira e informou que o motorista errou uma marcha no momento que estava no tobogã. ;Ele ficou com medo e foi embora;, disse. Ele não quis dar detalhes do motivo de o condutor estar em local proibido.

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