SÓ NA MANDINGA

SÓ NA MANDINGA

Em épocas de Mundial, não falta gente com os mais inusitados rituais e fórmulas para torcer pelo Brasil e secar os adversários. Nessa hora, vale tudo, desde palavras de sorte até ligar o carro antes do início de uma partida

GUILHERME PERA
postado em 08/06/2014 00:00
 (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Até o menos religioso dos torcedores está suscetível à mais diferente e inusitada forma de superstição nos momentos de tensão de Copa do Mundo. Na hora do aperto, de uma partida em que o coração praticamente pula pela boca, é comum a emoção tomar conta. Aí, vale tudo: pé de coelho, trevo de quatro folhas, escapulário, nós em meia, a camisa da sorte e inúmeros outros rituais.

O professor João Luiz Jambeiro, 35 anos, segue passos ;sagrados; em todos os jogos da Seleção Brasileira. Repete a camiseta e assiste aos jogos sempre com a mãe, a servidora pública Iris Moraes, 59. Juntos, eles tentam dar azar aos adversários do Brasil. A peculiar dupla cruza os dedos, aproxima as mãos da testa e começa a sussurrar ;cafifa;. O volume aumenta quando o oponente entra em campo ; quando outros familiares acompanham as disputas em campo com eles, fazem os mesmos gestos. ;Aumentam as chances de vitória;, acredita o rapaz. Já virou tradição: quando o placar está apertado, todos pedem para Iris ;puxar o cafifa;.

Segundo a supersticiosa dona Iris, o ;cafifa; é tradição familiar de anos, transmitida de geração para geração. ;Nunca vi uma mulher torcer tanto para um time como a minha tia Ilza torcia para o Flamengo. Era coisa de louco com o ;cafifa;;, lembra. ;Ela morreu há quase 20 anos, mas o ;cafifa; ficou. Aprendi com ela quando criança, assim como o João, herdeiro da paixão descontrolada pelo Flamengo, aprendeu comigo;, conta, antes de concluir com um pedido à reportagem. ;Pelo amor de Deus, deixe bem claro que essa palavra não tem nada a ver com a Fifa. Não tem um significado, mas não tem nada a ver com a entidade do futebol.;

A psicóloga do esporte Paloma Vaz diferencia os rituais pré-partidas de atletas dos cacoetes dos torcedores. ;Jogadores de tênis, por exemplo, batem uma bolinha antes do jogo para aquecer, é uma forma de preparação;, afirma. Quanto a quem vibra na arquibancada ou em casa, ela acredita que a superstição é uma forma de se envolver mais pessoalmente. ;Durante uma partida, especialmente de Copa, todo mundo é técnico, entende de futebol e quem é supersticioso acredita que uma peça de roupa ou uma ida ao banheiro aos 37 minutos do segundo tempo realmente fará a diferença;, explica.

Talismã
Às vezes, não precisa ser fanático para fazer mandingas. O sonho de infância do técnico em cartografia do Exército Ramadã Santana, 23 anos, que não é muito chegado a futebol nem sequer torce para um clube, era de ter um Vectra. Desde muito pequeno, no Recife, ele pensava em dirigir o carro. Filho de um sargento do Exército, ele veio com a família para Brasília em 2006, aos 15 anos. Realizou o desejo de consumo aos 20, pouco depois da Copa do Mundo de 2010, um presente do pai.

Nessa época, ele não imaginava criar um vínculo entre o veículo e a Seleção Brasileira. Mas no dia de um amistoso contra a Escócia, no ano seguinte à derrota para a Holanda na África do Sul, a bateria do carro deu problema e parou de funcionar. Ele deu a partida, o automóvel voltou a funcionar, e o Brasil venceu os escoceses por 2 x 0.

Desde então, ligar o carro é obrigatório antes de cada jogo da Seleção Brasileira. Foi o que Ramadã fez na campanha de cinco vitórias em cinco jogos na Copa das Confederações do ano passado. ;O meu carro é a minha paixão, o meu xodó. Quando vou dar a partida pré-jogo, fico um tempo nele, curtindo o momento;, diz. Também durante a mais recente conquista do Brasil, ele usou outro talismã: o filho Rafael Santana, nascido pouco antes do torneio. Na Copa, vai unir os dois. ;O ritual vai ser ligar o carro com o meu filho vestido de Seleção;, garante.

Futebol, música e festa
As manias de dona Íris para trazer boa sorte não se limitam ao ;cafifa;. Mãe da sambista Renata Jambeiro, ela joga sal grosso por todo o palco antes de cada show da filha. ;Já joguei até no palco da Esplanada, tento não perder nenhum;, conta. Quando tem festa em casa, sempre coloca um ovo no telhado. O motivo? ;Nunca chove quando eu coloco o ovo lá em cima, aí, a festa pode rolar sem problemas;, diverte-se.

Nascimento vencedor
A vinda de Rafael Santana é mais um item supersticioso que apareceu de surpresa. Nascido pouco antes da Copa das Confederações, o filhote é considerado um amuleto para o pai. ;O Brasil não vinha jogando nada, ele nasceu e a Seleção fez aquela campanha só de vitórias;, empolga-se Ramadã.

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