O enigma Iraque

O enigma Iraque

Rodrigo Craveiro rodrigocraveiro.df@dabr.com.br
postado em 18/06/2014 00:00

Quando Saddam Hussein foi encontrado amedrontado dentro de um buraco, perto de Tikrit, algumas pessoas imaginavam que o Iraque estava pronto para trilhar um caminho de paz, depois de uma ditadura brutal de um líder sunita que esmagou, sem piedade, a maioria xiita. O tirano capitulou na forca e o país tornou-se palco de uma disputa pelo poder que quase descambou para a guerra civil. Os piores cenários mais uma vez se apresentam para o berço da civilização babilônica. O grupo terrorista Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), de inclinação sunita, aproveitou-se do vácuo de segurança após a retirada das tropas norte-americanas e avançou, de modo surpreendente, sobre o norte do país.

Praticamente sem encontrar resistência, os extremistas executaram soldados iraquianos, que se revelaram inaptos a trabalhar pela estabilidade do Iraque. A incursão islamita foi um tapa na cara do premiê, Nuri Al-Maliki, um xiita desgastado no poder e considerado títere da Casa Branca. Mas também representou a desmoralização política do presidente norte-americano, Barack Obama, que celebrara o fim da ocupação do Iraque como vitória pessoal e concretização de promessa de campanha. O democrata descartou enviar militares a Bagdá, o que simbolizaria desastre político sem precedentes.

A volátil situação no Iraque abre espaço para uma aliança considerada impensável desde a Revolução Islâmica de 1979. O presidente do Irã, Hassan Rohani, admite uma parceria com Obama para combater o EIIL. Antes de qualquer sinal de camaradagem, Teerã está preocupado com o próprio futuro. O governo iraniano teme que os militantes do EIIL comecem a operar dentro de seu território, de maioria xiita. O temor é de que o Irã se torne um novo Iraque, com explosões de carros-bomba, ataques suicidas e caos.

Obama está de mãos atadas. Precisa de apoio internacional, inclusive do Irã, para fazer frente à ameaça jihadista. Abandonar o Iraque à própria sorte pode render a ele a reputação de um líder que mentiu para a própria nação. Aliar-se a Teerã seria uma guinada radical na ideologia da Casa Branca, que não mantém laços diplomáticos com as autoridades persas. Saddam Hussein, se estivesse vivo, estaria dando gargalhadas, ao ver o circo de horrores em que o país se transformou.

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