Ondas sonoras imprevisíveis

Ondas sonoras imprevisíveis

Após 13 anos de carreira, Mombojó decide se aventurar com Alexandre, trabalho mais experimental da banda

Juliana Figueiredo
postado em 18/06/2014 00:00



O Mombojó chega ao seu quinto disco, Alexandre, remetendo ao experimentalismo que marcou o álbum de estreia, Nadadenovo (2004), mas alcançando um som que se distingue de tudo o que já fez anteriormente. Da gravação de uma partida de pingue-pongue à leitura de um trecho da biografia da banda em alemão. Tudo virou recurso para o novo disco do grupo pernambucano, que mostra mais uma vez que não está aqui para fazer concessões ao mercado.

A história do nome Alexandre é antiga. Durante as gravações do disco de estreia, um teclado usado pela banda ficava repetindo a pergunta ;Are you sure?;, que mais soava como ;Alexandre;. A piada interna quase batizou o primeiro álbum, mas, 10 anos depois, o nome chega com uma força que dificilmente teria naquela época. É como se, em cada uma das 11 faixas presentes no disco, os pernambucanos desafiassem os ouvintes seguindo por rotas musicais imprevisíveis, e fazendo com que todos cheguem ao fim da audição sem ter certeza alguma.

;Alexandre tem a ver com o primeiro disco por causa da experimentação, mas musicalmente é outra coisa. Uma característica da banda sempre foi fazer trabalhos diferentes, se reinventar ao máximo, mas o lance experimental nunca tinha sido levado tão a fundo. Esse é o primeiro álbum em que a gente se permitiu incluir músicas instrumentais, vinhetas, repetições, e mudar o conceito do que é um disco, com começo, meio e fim. Queríamos um álbum menos canção e mais música;, explica o guitarrista Marcelo Machado.

Subversão
Em analogia à arte da capa, uma colagem de imagens desconexas e impactantes, Alexandre é uma mixagens de instrumentos, ruídos, ritmos e letras. Se a bateria de carnaval que introduz a faixa de abertura, Rebuliço, remete a um single de Copa do Mundo, esse clima é interrompido quando entra em cena a voz melancólica do vocalista Felipe S. e as batidas eletrônicas feitas por meio de um aplicativo de iPad, em um som com clara influência do Radiohead.

Se Me encantei por Rosário foi feita a partir de textos do Movimento Direitos Urbanos, criado em 2012, em Recife, para discutir e solucionar problemas da cidade, em Hello, a mesma frase é repetida várias vezes ao longo da música, e em Ping Pong, há apenas o som de uma bola quicando na mesa. Em Diz o leão, com participação de Céu (voz), Pupilo (drum synth) e Yuri Queiroga (guitarra), a banda segue uma narrativa mais tradicional, até que na metade volte a subverter o clima de novo.

Marco
Enquanto em Cuidado, perigo, o Mombojó trabalha com mais um integrante da Nação Zumbi, Dengue (baixo), em Summer long, a vocalista da banda inglesa Stereolab, Laetitia Sadier, canta, toca guitarra e participa da composição. ;Stereolab é a nossa maior referência. Esse disco ganha posição de marco na nossa carreira por causa da participação da Laetitia. Para nós, é o mesmo que um fã de rock gravar com o Mick Jagger;, conta Marcelo.

O Mombojó conheceu a cantora francesa há alguns anos, num show em São Paulo. Os pernambucanos aproveitaram a oportunidade para entregar o segundo disco, Homem-espuma (2006), e, um ano depois, ela entrou em contato dizendo que tinha interesse em fazer algo com a banda. ;Eu achei que era um trote, porque não fazia o menor sentido. Estávamos compondo e mandamos uma música que tinha a cara dela, e ela trabalhou em cima disso. Foi perfeito;, relembra Marcelo.

A banda, atualmente formada por Marcelo (quitarra), Vicente Machado (bateria), Felipe S. (voz e guitarra) e Chiquinho (teclado e sampler), chega à casa dos 30 ditando as suas próprias regras e seguindo o seu ritmo. Para conciliar a carreira com a vida pessoal ; casamentos, filhos e etc ; o grupo decidiu dar início à turnê de Alexandre a partir de agosto. Os fãs poderão pedir shows em suas cidades por meio do site Queremos. Até lá, é possível encontrar o novo disco nas lojas e em plataformas de streaming na internet.



;Esse é o primeiro álbum em que a gente se permitiu incluir músicas instrumentais, vinhetas, repetições, e mudar o conceito do que é um disco, com começo, meio e fim;

Marcelo Machado, guitarrista



Três perguntas/ Marcelo Machado

Em Alexandre, vocês trabalham mais uma vez com um time de músicos pernambucanos. Qual é a importância dessas parcerias?

Como banda independente, nós precisamos de parceiros. O interesse com a parceria é tentar aumentar o raio de onde o disco vai chegar. A internet ajuda, mas há um momento em que a música não chega mais às pessoas. Não existe disco nosso sem intervenção da Nação Zumbi, que são os nossos ídolos maiores daqui, as pessoas que mais influenciam na nossa carreira e na nossa vida. China trabalhou como compositor em todos os nossos álbuns. Começamos a fazer muitas coisas com o Vitor Araújo desde o último disco, 11; aniversário (2013). Somos todos amigos.

Em 2014, o Nadadenovo comemora 10 anos. Como vocês enxergam este primeiro trabalho?

Ter um disco fazendo 10 anos é legal. A gente até se sente meio velho. Começamos muito cedo, na faixa dos 17 anos. Gravamos o disco de forma despretensiosa, espontânea, com músicas que tínhamos há um bom tempo. O lançamento ganhou muita força por ter um som diferente e até por termos disponibilizado a audição na internet, o que era normal para nós. O disco foi muito feliz. Foi quando percebemos que realmente queríamos ser músicos. Até hoje o pessoal curte muito.

Quais são os planos para os próximos 10 anos?

O plano é chegar lá com todo mundo tranquilo, vivo. Aconteceram coisas muito difíceis ao longo desses anos (em 2007, o flautista Rafa foi vítima de infarto, aos 24 anos). Nós também queremos que as pessoas que trabalham com música autoral consigam viver cada vez melhor. A gente consegue viver disso hoje, mas não é fácil. Desejo que todos tenham tranquilidade e façam discos de forma despretensiosa.


Alexandre
Número de faixas: 11. Preço sugerido: R$ 25. Gravadora: Slap

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