Os desafios de Felipe VI

Os desafios de Felipe VI

VITOR GOMES PINTO Escritor, analista internacional
postado em 02/07/2014 00:00



Sucessor indicado pelo generalíssimo Francisco Franco e empossado em novembro de 1945, dois dias após a morte por causas naturais do ditador que ao longo de três décadas comandara a Espanha, Juan Carlos I reinou até abdicar do trono 39 anos e meio depois, no último 2 de junho. Felipe VI de Borbón assumiu, aos 45 anos de idade, um legado quase tão desafiador quanto o do pai, que ; nascido na Itália e criado em Portugal ; à sua época teve a missão de transformar o país em uma democracia, ao lado de Sofia, a confiável e reservada aristocrata vinda da Grécia. Agora a nova rainha é Letícia, uma tranquila plebeia divorciada, ex-âncora de tevê e com um aborto feito numa época em que a prática era proibida. O país tem longa tradição monárquica, mas viveu dois períodos republicanos exemplares: um em 1873 e 1874, outro mais recente, de 1931 a 1939, derrubado por Franco na sangrenta guerra civil espanhola, que deixou mais de meio milhão de vítimas.

O legado da crise econômica que se estendeu de 2008 a 2012 são os atuais 6 milhões de desempregados (26% da população ativa), mas esse não é o único problema da nova coroa. Talvez o maior deles seja manter a unidade nacional. A federação espanhola divide-se em 17 comunidades (estados) autônomas e duas delas ; Catalunha (a mais rica, onde está Barcelona) e o País Basco ; forçam a separação. O plebiscito catalão está marcado para 9 de novembro próximo. Em Bilbao, o ETA, sigla do movimento Euskadi Ta Askatasuna (Pátria Basca e Liberdade), em outubro de 2011, decidiu pelo fim definitivo da luta armada, mas reafirmou o direito basco à independência.

A grande discordância não é sobre o conteúdo democrático do regime e sim sobre a sua forma. Os espanhóis discutem se desejam uma monarquia como a sueca, uma república como a síria ou continuam com sua atual estrutura de um ;país europeu normal;, uma democracia parlamentar cujo atual presidente (equivale ao posto de primeiro-ministro) é Mariano Rajoy, do Partido Popular (PP), conservador. O cenário político não é favorável a qualquer dos partidos tradicionais. Nas últimas eleições nacionais, três anos atrás, o PP e o PSOE (centro-esquerda), 1; e 2; colocados, obtiveram os votos de apenas 53% dos eleitores. Quase todo mundo quer formar um novo partido, local ou nacional. Desde que o movimento dos ondignados levou 8 milhões de pessoas às ruas, entre maio e dezembro de 2011, a cada dois dias um novo agrupamento pede sua inscrição à corte eleitoral. O recém-criado Podemos, que propõe nacionalizar os bancos, devolver ao sistema público os hospitais privatizados, reduzir os gastos militares, acaba de obter cinco cadeiras no Parlamento Europeu agora renovado.

A questão migratória é outra preocupação sempre latente. Os 197 mil estrangeiros que viviam na Espanha em 2008 transformaram-se nos 5,7 milhões de hoje. A maioria é do leste europeu, mas 19% vêm da África do Norte e subsaariana, forçando continuamente as barreiras em Celta e Melilla, onde, além das profundas valas divisórias, malhas antitrepa (redes metálicas para impedir os invasores de segurar e escalar) e a soldadesca lutam dia e noite contra hordas de invasores que fluem via Marrocos.

Juan Carlos só ganhou o respeito dos súditos quando, em 1981, impediu o golpe de Estado orquestrado pelo tenente-coronel Antonio Tejero. Depois viu a Espanha consolidar-se economicamente a ponto de tornar-se o segundo maior investidor na América Latina, região que visitou inúmeras vezes. Numa delas, durante Cúpula Iberoamericana em Santiago do Chile, irritado com Hugo Chávez, que não cessava de interromper o discurso do então primeiro-ministro José Zapatero, gritou-lhe o famoso ;por qué no te callas?;. Felipe VI, cuja posse ocorreu em 19 de junho, não tem carisma. É visto como homem discreto, sério e bem preparado, sem participação nos escândalos em que se envolveram o genro do rei e outros membros da família real. A aposta é de que será um rei bem mais profissional, ou seja, exatamente aquilo de que a Espanha atualmente mais necessita.


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