MP apura rede de apoio do médico estuprador

MP apura rede de apoio do médico estuprador

Ao menos cinco pessoas devem ser indiciadas por ajudar na fuga e na manutenção no exterior de Roger Abdelmassih, entre elas, a mulher dele, Larissa Sacco, considerada foragida. Prisão incentivou a denúncia de novas vítimas

JULIA CHAIB
postado em 22/08/2014 00:00
 (foto: Senad/Reuters)
(foto: Senad/Reuters)




Pelo menos cinco pessoas são consideradas suspeitas de facilitarem ou serem cúmplices da fuga de Roger Abdelmassih, 70 anos, para o Paraguai e devem ser indiciadas pelo Ministério Público de São Paulo. Faz parte da lista a mulher dele, Larissa Sacco, 37 anos. Ontem, a Interpol emitiu alerta para que países parceiros investiguem o paradeiro da ex-procuradora da República, desaparecida desde a prisão do marido, na última terça-feira, em Assunção. Condenado a 278 anos de prisão em 2010, Abdelmassih é acusado de 56 estupros contra 39 mulheres. Ele foi detido na capital paraguaia e passou as últimas duas noites no Presídio de Tremembé (SP), em uma cela isolada.

A repercussão da prisão de Abdelmassih, na última terça-feira, mobilizou novas vítimas a relatarem outros casos. A Delegacia de Defesa da Mulher em São Paulo recebeu três ligações e uma declaração efetiva de uma mulher que diz ter sido abusada pelo menos duas vezes pelo médico enquanto estava sedada. Ela fez três tentativas de engravidar, sendo a última em 2001. ;Ela desconfiou quando acordou da sedação e viu o médico em cima dela;, conta a delegada Celi Paulino. Com esta, sobe de 26 para 27 o número de denúncias de estupro que constam em outro inquérito movido contra o homem que já foi considerado o ;papa da reprodução assistida no Brasil;.

De acordo com o promotor do Ministério Público de São Paulo Luiz Henrique Dal Poz, o desafio agora é desmontar a rede que possibilitou a fuga e a permanência de Abdelmassih no Paraguai. Para Dal Poz, o suporte financeiro do ex-médico vinha do Brasil. ;Já (o suporte) do anonimato, da clandestinidade, pode ter alguém no Paraguai envolvido;, acredita. Na quarta-feira, o ministro antidrogas do país vizinho, Luis Alberto Rojas, afirmou que o ex-médico tem contatos influentes, desde políticos, policiais corruptos até dirigentes de futebol.

A investigação trabalha com a hipótese de que ele era auxiliado por duas frentes: uma de pessoas capacitadas a fazer a engenharia fraudulenta e outra de pessoas mais próximas. ;Estamos na fase de definição de como era esse sistema e a participação de cada um. Ainda não houve a individualização de cada conduta e posterior responsabilização. Mas as condutas de pelo menos cinco pessoas estão sendo averiguadas;, disse o promotor. No país vizinho, o ex-médico se apresentava com o nome de Ricardo Galeano. A polícia paraguaia investigará quem emitiu os documentos falsos para o condenado.

O trabalho de apuração do Ministério Público começou no fim de maio para constatar crimes como falsidade ideológica, material e de lavagem de dinheiro e apontou que Abdelmassih havia vendido uma propriedade rural em Avaré (SP) a uma empresa em nome da mulher. A primeira pista do paradeiro de Abdelmassih foi uma transferência de pertences de um imóvel em Jaboticabal, próxima a Ribeirão Preto, para essa fazenda em Avaré. Na avaliação de Dal Poz, o ex-médico deveria ter muito dinheiro em espécie.

Isolamento
Na prisão, Abdelmassih recebeu uniforme, um kit higiene e está em uma cela isolada e só pode receber a visita de advogados. Ele ficará separado dos demais detentos entre 10 e 30 dias. Ao ser detido no Paraguai, o condenado por estupros chorou ao falar dos filhos pequenos, segundo policiais civis. Ele tem um casal de gêmeos com a mulher, Larissa Sacco. Segundo ele, a ideia de fugir para o Paraguai foi dela.

As primeiras denúncias contra o ex-médico surgiram em 2008. Especialista em reprodução assistida, ele atendia mulheres em uma clínica luxuosa em São Paulo. Em 2010, ele foi condenado a 278 anos de prisão, mas obteve o direito de responder em liberdade. Só em 2011, a Justiça determinou a detenção, mas ele fugiu. Em parceria com a polícia paraguaia, ele foi encontrado no Paraguai, onde levava uma vida de luxo e usava disfarces para não ser reconhecido.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação