CASTIGO INÉDITO?

CASTIGO INÉDITO?

Caso receba a punição máxima em julgamento, hoje, no Superior Tribunal de Justiça Desportiva, Grêmio se tornará o primeiro time de futebol expulso de uma competição devido a atos racistas de torcedores

Amanda Martimon Braitner Moreira
postado em 03/09/2014 00:00
 (foto: Raw Image / Agência O Globo - 31/8/14
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(foto: Raw Image / Agência O Globo - 31/8/14 )


Na tarde de hoje, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) do Brasil pode tomar uma decisão inédita na história do futebol. Se optar pela punição mais severa possível ao Grêmio, devido aos atos racistas de parte da torcida contra o goleiro Aranha, o órgão expulsa o tricolor da Copa do Brasil. Segundo levantamento do Correio, jamais um clube foi excluído de uma competição por causa de ofensas desse tipo. O cálculo leva em consideração todas as divisões dos 30 países mais bem posicionados no ranking da Fifa ; 18 europeus, 10 americanos, dois africanos.

Embora as entidades esportivas dos outros países pesquisados pela reportagem tenham regulamentos que permitem esse tipo de punição, não há registro de clubes afastados de competições por condutas discriminatórias por parte de torcedores ou mesmo de jogadores. O julgamento do tricolor gaúcho está previsto para começar às 14h, no Rio de Janeiro, sede do STJD.

Com base em imagens de emissoras de tevê e das câmeras do circuito interno da Arena do Grêmio, e ainda nos registros tardios do árbitro Wilton Pereira de Sampaio na súmula, a terceira comissão disciplinar do tribunal avalia a possibilidade de excluir o time da Copa do Brasil tendo como respaldo o artigo 243-G do Código Brasileiro de Direito Desportivo. De acordo com o texto, a prática de discriminação de raça e cor, por exemplo, é passível de punição que vai de multa a expulsão do clube da competição.

Na avaliação de Maurício Corrêa da Veiga, secretário-geral da Academia Nacional de Direito Desportivo (ANDD), excluir o Grêmio da Copa do Brasil será o melhor caminho para evitar reincidências preconceituosas nas arquibancadas. ;Uma pena severa automaticamente inibe as posturas racistas das torcidas. Minha esperança é que (a punição ao Grêmio) sirva de caráter pedagógico, e não venham os clubes dizer que é impossível controlar a torcida. Quando surgiu a punição sobre arremessar objetos, por exemplo, a prática diminuiu, quase não tem mais. Os torcedores mesmo se fiscalizam;, avalia.

A opção do STJD pela expulsão, contudo, é tratada com cautela. Para Veiga, a entidade ainda é conservadora e uma atitude nesse sentido será ;uma grata surpresa;. Praticamente já eliminado da competição, tendo de vencer por três gols de diferença fora de casa para reverter a derrota de 2 x 0 do primeiro jogo, a exclusão do Grêmio, se acontecer, não teria tanto peso em campo, mas poderia servir de ;exemplo; para as demais torcidas brasileiras.

Arbitragem no tribunal
Além do Grêmio, os árbitros e auxiliares da partida foram denunciados por deixarem de cumprir com suas obrigações ao não relatarem problemas disciplinares ou fazer de maneira inadequada. Imagens mostram Aranha cobrando posicionamento dos juízes, mas o goleiro não foi atendido. Na primeira versão da súmula, por sinal, não há relato de atos racistas.

Depoimento frustrado
Os primeiros torcedores do Grêmio prestaram depoimento, ontem, na 4; Delegacia da Polícia Civil de Porto Alegre. Um erro na identificação dos suspeitos indignou o estudante Tiago Bulzing, 23 anos. Ao responder à intimação, ele levou uma imagem em que provava estar em um setor diferente daquele onde surgiram os gritos e os xingamentos. Em uma rede social, o rapaz prometeu deixar de ser sócio do Grêmio. ;Buscarei meus direitos, e ver o que posso fazer com relação a processos. Lamentável;, reclamou. Patrícia Moreira, que se tornou o principal rosto do racismo na Arena do Grêmio, deve depor amanhã.

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