Poluidores na rota ambiental

Poluidores na rota ambiental

postado em 13/11/2014 00:00


Imaginem um pacto firmado pelos dois mais temíveis vilões do planeta apresentado ao mundo como exemplar para a humanidade. Quem acreditaria em tais boas intenções, com credenciais de tal naipe? Anunciado como ;histórico;, o acordo contra as mudanças climáticas que os Estados Unidos e a China, os maiores consumidores de energia e maiores emissores de gases do efeito estufa na Terra, acabam de fechar em Pequim, no mínimo, carece de credibilidade. Ainda assim, é um avanço.

É bom abrir parêntese, para lembrar que 2013 foi o sexto ano mais quente desde 1850, igualado com 2007, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), uma agência das Nações Unidas. A temperatura na superfície de terras e oceanos superou em 0,50;C a média calculada entre 1961 e 1990 e em 0,03;C a medida na última década. Quem ainda pensa que as previsões sobre o aquecimento global são alarmistas, sem base científica, deve observar que o século 21 já tem 13 dos 14 anos mais quentes registrados desde 1850.

E qual a responsabilidade dos Estados Unidos e da China nesse cenário? Primeiro, somam 45% de todas as emissões de gás carbônico no planeta, um dos principais causadores do efeito estufa. A título de comparação, a União Europeia inteira produz 11%. Segundo, até ontem, Washington e Pequim resistiam drasticamente a aderir ao esforço mundial para reduzir a poluição atmosférica. Os argumentos eram um deboche: o custo para suas economias, as duas maiores dos cinco continentes.

Pois bem, o avanço é justamente o ineditismo do compromisso dos EUA e da China com a redução da emissão de gases poluentes. Pode ser retórica, mas discursos propositivos são essenciais quando se deseja ir adiante. E os dois líderes vão chegar à Conferência sobre Mudança Climática de Paris, no ano que vem, não mais na condição de resistentes, mas na de colaboradores declarados. Essa alternância de posição de Barack Obama e Xi Jinping pode ser o que falta para um pacto global.

Quanto aos compromissos em si assumidos por ambos, a China anuncia que, até 2030, 20% de sua energia vai ser proveniente de fontes limpas. Não é pouco. Isso representa nada mais, nada menos do que algo entre 800 gigawatts e mil gigawatts. Ou seja, perto da produção total de energia dos Estados Unidos. Já a terra de Tio Sam passou de 17% para 26% a 28% a meta de redução de CO2. No Capitólio, o líder dos repubicanos no Senado, Mitch McConnell, estrilou, sacando o velho discurso de antanho. Para ele, a proposta é irreal e vai afetar o mercado de trabalho e o custo da energia.

À parte a questão ambiental, Obama festejou o acordo como ;marco importante; nas relações com Pequim, enquanto Xi o apontou como ;novo modelo; para relações entre grandes potências. Os líderes parecem ter posto a diplomacia em primeiro plano. Se o ;marco; e o ;novo; significarem respeito, que pressupõe credibilidade, vale para todos. Melhor se ambos tiverem razão e estiverem de fato bem-intencionados. O futuro dirá.

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