O petrolão e a ética na educação

O petrolão e a ética na educação

ANTONIO FREITAS Membro da Academia Brasileira de Educação (ABE) e da Academia Brasileira da Ciência da Administração (ABCA) ANA TEREZA SPINOLA Professora da FGV
postado em 19/03/2015 00:00



A Operação Lava-Jato, deflagrada em março de 2014, traz à tona, diariamente, revelações de crimes econômicos e políticos que vêm deixando os brasileiros cada vez mais perplexos. Até o momento, calcula-se que a Petrobras terá baixas contábeis de, aproximadamente, R$ 61 bilhões por causa, direta ou indireta, da corrupção. Os prejuízos transcendem os impactos financeiros, porque revelam problema ainda mais complexo: a falta de ética.

De acordo com a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), esvaem-se pelo ralo da corrupção cerca de R$ 70 bilhões ao ano. Se os recursos fossem investidos em setores essenciais, como a educação, o número de matriculados no ensino fundamental saltaria de 34,5 milhões para 51 milhões de alunos. Aumento de 47% ; mais de 16 milhões de jovens e crianças nas salas de aula. Seria possível também construir 57 mil escolas e 918 mil casas populares, além de comprar 160 milhões de cestas básicas por ano.

O escândalo que envolve a Petrobras, empresários e políticos vem expondo a ausência de políticas internas e externas capazes de identificar e prevenir condutas criminosas. No Brasil e no mundo, observa-se que a baixa qualidade da educação é um dos pilares para as práticas corruptivas. Ao cruzar os dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) com o Índice de Percepção de Corrupção Mundial, notamos que os países menos corruptos estão no topo da avaliação. Cingapura está entre os cinco países menos corruptos e no segundo lugar do Pisa. Já o Brasil aparece em 72; lugar na lista de países corruptos e em 58; posição no Pisa.

A explicação é lógica: com menos desvio de dinheiro, sobra mais para investir em programas essenciais. População mais instruída tem mais poder de fiscalização e cobrança. Com a recente aprovação do Plano Nacional de Educação (PNE), que elevou para 10% o valor a ser investido na educação nos próximos 10 anos ; quase o dobro dos atuais 5,3%, valor já considerado expressivo ; os gestores e o povo devem ficar mais atentos para que os recursos sejam aplicados corretamente.

Ao aumentar os esforços em educação, investimos diretamente na difusão da ética. Os pais, professores, empresários e políticos devem desempenhar papel primordial na questão. Mesmo sabendo que a primeira célula de socialização e internalização de valores vem da família, as escolas, as universidades e as empresas devem aplicar e reforçar esse princípio nas atividades.

É importante que, desde o ensino básico, seja universalizada a ;cultura da prestação de contas;, disseminando o valor da transparência das informações pelas instituições, um dos pilares da democracia. Isso fará que as crianças e os futuros profissionais desenvolvam espírito crítico, construam a própria cidadania e sejam capazes de contribuir para as transformações que a sociedade exige, especialmente, no que se refere ao resgate dos valores éticos.

Sabemos que isso demanda atualização e simplificação da legislação vigente que beneficia os atos ilícitos. Exige também maior rigor no cumprimento das leis e punição aos culpados. Por meio das mudanças, de forma gradual, em um período de 10 anos, talvez seja possível alcançar um patamar semelhante ao de países como os Estados Unidos, onde a não observância ética ocorre muito mais esporadicamente em razão das penalidades aplicadas.

A caminhada para o desenvolvimento educacional e ético será árdua. Além de ter que enfrentar o analfabetismo funcional, a população padece do analfabetismo político. Ou seja, é acometida pelo total desinteresse pela esfera pública. Isso impede que as pessoas tenham consciência de que a corrupção é grande obstáculo para o desenvolvimento.

Nos últimos anos, acompanhamos a inflação descontrolada, o aumento de impostos, a desvalorização da moeda, o baixo índice de confiança do investidor internacional e os sinais de estagnação. O Brasil clama por novo rumo. É preciso recuperar a confiança do povo frente ao efeito destruidor da corrupção e da falta de ética, especialmente na esfera política. Os políticos são o ponto de equilíbrio de uma nação e o exemplo de liderança para a sociedade.

O lema do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, ;Brasil, Pátria Educadora;, precisa transcender o conceito da sala de aula. Deve servir de reflexão e inspiração para políticos, empresários, enfim, todos nós, para que possamos rever e aprimorar a nossa educação e os nossos valores em busca de um mundo mais ético.


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