Um dia para praticar o perdão

Um dia para praticar o perdão

Conheça a história de pessoas que conseguiram sublimar uma traição, um abandono e até uma dor avassaladora. A deputada Keiko Ota não só desculpou os assassinos do filho, como propôs uma lei para instituir um dia de reflexão e celebração da paz

» MANOELA ALCÂNTARA
postado em 05/04/2015 00:00
 (foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
(foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)

O último gesto de Jesus antes de morrer crucificado foi o perdão. O filho de Deus pediu a remissão dos atos cometidos pelos soldados romanos: ;Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem;. Na passagem, uma das mais conhecidas e emblemáticas da Bíblia, permanece uma lição para todos que não desfrutam da elevação espiritual do Cristo. Não é fácil deixar de lado a mágoa de alguém que provocou sofrimentos, como o abandono ou a traição. Mas há quem encontre forças para desculpar. E, todos são unânimes, o maior beneficiado é quem concedeu o perdão.

A deputada Keiko Ota (PSB/SP) perdoou os três assassinos do filho Ives Yoshiaki Ota, de 8 anos. Em 1997, ele foi sequestrado, morto com dois tiros e enterrado embaixo do berço da enteada de um dos criminosos. ;Não sei descrever a dor que senti quando o Ives partiu. Mas o ressentimento e o ódio viram um fardo. Foi muito difícil, mas, perdoando os algozes do meu filho, consegui surpreender até os médicos. Eles diziam que eu não podia engravidar e eu tive uma filha;, diz. A parlamentar paulista transformou a tragédia em causa e, agora, quer instituir o Dia Nacional do Perdão. O Projeto de Lei n; 6.128/2013 teve o parecer aprovado na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania ( CCJC ) e, desde 25 de março, está na Mesa Diretora da Câmara dos Deputados.

Se virar lei, será um dia de reflexão e de celebração da paz, segundo a parlamentar. A data será 30 de agosto, dia em que Ives morreu. ;Se todo mundo perdoar alguém, estaremos realizando a paz. Hoje, diversos homicídios são cometidos por motivos fúteis. Crimes de ódio que poderiam ser evitados com a cultura do perdão;, diz Keiko Ota Keiko (Leia três perguntas para).

O empresário Anderson Guimarães, 43 anos, não tem mais insônia. As doenças graves não identificadas pelos médicos desapareceram desde o dia em que ele deixou de lado a mágoa que nutria pelo pai, Edson Guimarães, 67. Quando Anderson tinha apenas 11 anos, o pai saiu de casa. ;A gente pediu muito para ele não ir. Ele disse que não estaria em casa quando voltássemos da igreja. Espalhamos cartazes dizendo que o amávamos, mas não teve jeito. Quando chegamos, o armário estava aberto e vazio e ele nunca mais voltou;, conta.

Edson era o melhor pai do mundo, segundo Anderson, e o vazio se transformou em mágoa, aos poucos. ;Eu, minha mãe e meus dois irmãos nos abraçamos e choramos o domingo inteiro. Fui reprovado de ano na escola, porque sofri demais;, relata. O sentimento ruim aumentava nos dias em que Anderson lembrava todas as vezes em que o pai fazia carrinho de rolimã, jogava bete e pião. ;Só pensava que aquele tempo perdido nunca seria recuperado. Eu estava crescendo e ele não estava ali;, lamentou.

Anderson ficou doente. Fez uma série de exames, mas o diagnóstico nunca era conclusivo. Dezenove anos depois, o empresário teve uma conversa com a mãe que mudou o rumo da história. ;Ela me contou as dificuldades vividas pelo meu pai na infância. Consegui perceber que ele também sofreu muito. Depois disso, o procurei. Conversamos, choramos e eu disse a ele: ;Para mim, você ainda é o melhor pai do mundo;;, contou.

Hoje, Anderson e Edson são melhores amigos. As doenças inexplicáveis desapareceram. ;Amargura vira câncer. Quando perdoei, minha vida seguiu. Impressionante como passei a viver de novo;, relatou o empresário. A lição ficou para todos os dias do ano. ;Se tenho problemas, procuro a pessoa e peço perdão. Tenho uma filha maravilhosa. Não estou com a mãe dela, mas somos amigos e mantemos uma relação muito próxima.;

Vida nova
É difícil encontrar em uma roda de amigos uma pessoa que admita aceitar uma traição. A treinadora de saltos ornamentais Pollyanna Lacerda, 36 anos, não imaginava que se veria nesse dilema. Com dois anos de casada, o então marido viajou a trabalho para a Austrália e conheceu outra mulher. Logo após o retorno dele, Pollyanna descobriu a traição. ;Eu batia no peito e dizia que nunca perdoaria algo assim. Foi muito difícil, mas pesei os prós e os contras e consegui perdoar.;

Em maio de 2014, o casamento acabou, mas Pollyanna não se arrepende de ter dado uma segunda chance ao ex-marido. ;Depois disso, compramos um apartamento e tivemos duas filhas. Ficamos 10 anos juntos, o aprendizado foi muito bom;, relata. As desculpas de Pollyanna valeram para que os dois construíssem uma vida juntos.

Já Maria* passou 20 anos dentro do casamento sem falar o que sentia. Via o marido ter atitudes agressivas com ela e com os filhos e não conseguia reagir. Anulou-se, esgotou todos os limites de tolerância e resignação e decidiu falar. ;Já não havia espaço dentro de mim para uma só palavra de insulto, então, como se tivesse acordado de um terrível e longo pesadelo, enfrentei aquele que até então me oprimia;, conta. As agressões verbais não eram só em casa, mas em público. O filho mais velho era sempre o mais prejudicado. ;Depois que conversei com meu marido e lhe dei o meu perdão verbalmente, consegui ver melhoras. Comecei a cuidar mais de mim e hoje sou uma nova pessoa.;

* Nome fictício a pedido da entrevistada


Três perguntas para

deputada Keiko Ota (PSB/SP)



Por que decidiu criar o projeto de lei para instituir o Dia Nacional do Perdão?
O perdão salvou a minha vida. Além de o perdão ser divino, é uma questão de inteligência para que a pessoa não fique carregando aquele fardo. O ressentimento e o ódio viram um fardo. Não é fácil, o perdão é um exercício. Fazia orações do perdão 600, às vezes, 800 vezes por dia para tentar perdoar os três homens que tiraram a vida do Ives. Quando aconteceu a fatalidade com ele, eu já queria ter o terceiro filho, fiz vários tratamentos. Meu marido é descendente de japonês, e qual japonês não quer uma penca de filhos? Os médicos disseram que eu não podia mais engravidar. Mas, quando consegui perdoar os algozes do meu filho, veio a gravidez. Minha médica ficou impressionada. Hoje, minha filha mais nova tem 16 anos.

Eles foram presos. Você queria justiça?
O perdão é uma coisa e a justiça é outra. Elas podem andar juntas, desde que a justiça não seja feita de uma forma transtornada. É preciso garantir paz e direitos humanos para todos. Punir é prevenção também. Se as pessoas têm a consciência de que podem ser punidas, vão pensar ; não vamos fazer isso, pois podemos ser presos;. Hoje, os homens que mataram o Ives estão soltos. Eles

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