Sustentabilidade econômica e educacional do Brasil

Sustentabilidade econômica e educacional do Brasil

» PAULO NATHANAEL PEREIRA DE SOUZA Ex-presidente do Conselho Federal de Educação, economista e membro da Academia Paulista de Letras
postado em 01/02/2016 00:00

No Brasil, tanto a economia quanto a educação continuam a andar aos trancos e barrancos, sem o embargo de na última campanha política haverem elas sido priorizadas nos discursos dos candidatos à Presidência da República. A economia, porque os responsáveis por sua condução, compromissados com doutrinas estatizantes, sufocam o capitalismo e a livre iniciativa e, com isso, impedem as forças produtivas de se soltarem das amarras de ação regulatória que, em vez de olhar pelo parabrisa, enquanto se guia o carro, preferem as imagens do espelho retrovisor. Fala-se muito em desenvolvimento e age-se, na prática, contra ele, quando nos contratos, por exemplo, das PPPs se limita em demasia a lucratividade do investimento privado nas obras e na gestão dos projetos de infraestrutura do país.


Enquanto no mundo todo (até na China que é comunista), se estimulam as realizações empresariais da iniciativa privada, aqui no Brasil, se insiste em demonizar o lucro, na irreal e romântica mania de achar que o lucro, em vez de possibilitar ganhos de capital, por meio de impostos e outros mecanismos de distributivismo social que beneficiam a coletividade, só enche as burras dos empreendedores. Pratica-se, na política econômica em vigor, a anedota segundo a qual somente um dos soldados do desfile mantém o passo certo, enquanto os demais, aos milhares seguem os tambores com o passo errado.


Pela versão dos policy makers brasileiros, o resto do mundo está errado nas suas práticas econômicas e só o Brasil consegue acertar o passo com essa teimosia maluca em querer superar a crise econômica por via apenas do consumo interno ; um consumo, aliás, a ser sustentado, não se sabe como, por consumidor sem renda e sistema econômico sem produção. É, em última análise, o que resulta da cognominada nova matriz econômica, inventada por equivocados economistas que digeriram mal as teses keynesianas.


Também na educação adotada no Brasil, o mesmo estilo eivado de equívocos, o que faz das futuras gerações capital humano incapaz de pensar e de tomar decisões sobre o destino da nação. As avaliações internas e externas (a Unesco e o Pisa, por exemplo) têm mostrado à sociedade a incapacidade das escolas brasileiras de formarem alunos nos conhecimentos mínimos exigidos pela modernidade científica e tecnológica, que colocou o conhecimento como o valor primeiro da educação dos jovens.


O saber está aí, cada vez maior e mais complexo, a desafiar alunos e professores a conquistá-lo, dominá-lo e usá-lo como instrumento indispensável para a compreensão do mundo atual e das tendências futuras. E o que se vê em nosso país é uma escolaridade esquisita, que, em vez de medir as insuficiências da aprendizagem e corrigi-las, adota essa excrecência das promoções automáticas, que se fundamenta não na sabedoria, senão na ignorância, e leva os alunos do analfabetismo puro ao funcional, na conclusão do curso. Basta atentar para os resultados da aquisição de saberes pelos jovens brasileiros de 15 anos de idade, que estudam no ensino médio e que se apresentam na prova do Pisa, a cada dois anos: não conseguem demonstrar qualquer progresso em leitura e escrita, matemática e ciências (as alavancas do processo cultural básico dos seres humanos).


Nossa classificação fica no último terço entre os 65 países, que participam desse certame: não sobe na escala, nem mesmo por milagre (como se o sucesso pudesse fazer-se por milagre, e não, por um esforço hercúleo a ser definido numa política educacional dotada de qualidade e pertinência). Daí também se explica a eterna má colocação do Brasil no IDH mundial (medida do grau de civilização e desenvolvimento de um país). Somos a sétima economia do planeta? Somos, mas sem grande proveito para uma população pouco educada e sem a devida participação cidadã, na vida política, econômica e cultural do país. E quando por aqui se fala em aumentar as oportunidades de educação, o que se faz, com frequência, é multiplicar vagas e cursos no ensino superior, que costuma ser a terceira prioridade de um sistema de educação (1; ensino básico, 2; ensino técnico, 3; ensino superior).


Nos governos mais recentes do Brasil, há manifestações ufanistas dos dirigentes nesse sentido. Só que até mesmo a expansão do 3; grau (superior) se faz desacompanhada de medidas indispensáveis, tais como prédios e equipamentos e, principalmente, professores capacitados e bem pagos, além de alunos bem formados na educação básica, educação essa com a qual ninguém parece muito preocupado nos governos populistas que temos tido. Tudo isso pode ter efeitos enganosos nas estatísticas e na publicidade, mas para o futuro da nação não acrescentam muita cousa. É mister agir rapidamente para que o país possa sair desse paredão de mediocridade e de analfabetismo funcional, que, hoje, se pratica nos sistemas de ensino, e que trava de forma perigosíssima o advento pleno da democracia entre nós.

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