Uma pedra preciosa

Uma pedra preciosa

O ator, cantor e compositor RUBI ganha os holofotes ao lado de Elza Soares, no show do disco A mulher do fim do mundo

Sara Campos Especial para o Correio
postado em 06/03/2016 00:00
 (foto: Matheus Jose Maria/Divulgação)
(foto: Matheus Jose Maria/Divulgação)

Nascido em Goiânia e criado em Taguatinga, o músico e ator Wilton Alves de França, conhecido como Rubi, divide palco com Elza Soares na turnê do elogiadíssimo show A mulher do fim do mundo, na música Benedita, que trata das dificuldades do cotidiano enfrentadas por uma mulher forte. Ao Correio, Elza, eleita em 2000 como a ;Melhor cantora do milênio;, não economiza elogios ao parceiro de palco: ;Trabalhar com Rubi é maravilhoso, sensacional. Tenho um carinho muito grande pelo Rubi artista e pela pessoa que ele é. Ele é um escândalo de bom;. O show ainda não tem data para chegar a Brasília, mas a expectativa aumenta a cada boa crítica que recebe. Além de Rubi, uma nata de instrumentistas paulistanos acompanha Elza. A direção-geral é de Guilherme Kastrup e conta com um total de 15 artistas. Confira a conversa com Rubi:







Em Taguatinga
Nasci em Goiânia, mas cheguei a Brasília com meus pais com apenas 1 ano e meio de idade. Passei toda a infância e a adolescência em Taguatinga, mudança que abriu minha mente e foi nesse período que participei de um grupo de jovens da Igreja católica: lá tive contato com a música e o violão. Mas não esqueço que, quando criança, participei de uma colônia de férias e tive oportunidade de assistir a um espetáculo na Sala Villa-Lobos, no Teatro Nacional. Fiquei encantado... E minha vontade desde então era me tornar um ator.

Seminário
Entrei no Seminário Católico no começo da década de 1980. Cheguei a passar um ano na Zona da Mata de Pernambuco e um ano em Recife. A fase em que fiquei no interior me marcou muito. As questões latifundiárias eram muito fortes no Nordeste e eu era parte do núcleo da Igreja da ordem Carmelitas, onde fazíamos um verdadeiro trabalho de campo. Apesar de ter um perfil mais recluso, o seminário me abriu portas para vivenciar a arte. Lá eu apresentava peças diversas, experiência que me garantiu uma amplitude de atuação. Abrir mão do mundo eclesiástico foi muito difícil em um primeiro momento, mas vi que a questão espiritual exige um trabalho mais interno. A arte tem uma capacidade de abrir a mente e os horizontes, e na vida espiritual é preciso se fechar. Comecei a pensar muito sobre isso e vi que era hora de voltar para casa.

Retorno a Brasília
Quando cheguei a Brasília, mergulhei profundamente na área cultural da minha cidade, que estava ali para ser redescoberta. Comecei a frequentar lugares que não frequentava antes e conhecer muitas pessoas ligadas ao universo teatral que se tornaram grandes amigas. Comecei a assistir a peças no Teatro da Praça, em Taguatinga Centro, ir a bares com música ao vivo e muitos shows. Um dos lugares que me abraçou foi o antigo Teatro Rola Pedra, que ficava na entrada da cidade. Era um espaço de veia alternativa e muito importante, não apenas para Taguatinga, mas para a capital inteira (o poeta e escritor Paulo Kauim está finalizando um livro que conta a história desse espaço tão importante, por onde passaram nomes como o dramaturgo Plínio Marcos, a escritora Rose Marie Muraro, além dos gigantes do rock brasiliense Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude).

Artes cênicas
Pesquisei sobre cursos de teatro e fiz o meu primeiro com José Mauro Ribeiro, no Teatro Garagem. Ali, vivi intensamente a área central de Brasília. Explorei mais o Plano Piloto ao lado de novos amigos do teatro e até criei com eles uma banda de garagem. Nessa época, procurei a Faculdade Dulcina de Moraes, onde cursei o bacharelado em artes cênicas com início em 1984. Depois de um tempo de curso, fiz um teste para um musical dirigido por Oswaldo Montenegro. Passei no teste, tranquei a faculdade em 1987 e me mudei para o Rio de Janeiro. Aprendi muita coisa com Oswaldo Montenegro: ele é um diretor muito intenso. É um profissional e tem um olhar muito singular para a arte. Isso, pra mim, era incrível de se ver. Nesse período, conheci Deborah Blando, Milton Guedes e Tom Capone. Essa experiência do musical foi de extrema importância para observar, fazer arte e maturar a minha própria vida.

O compositor
Comecei a fazer músicas utilizando como base de algumas canções o trabalho de um amigo meu, o poeta Mario Ribeiro, que conheci por intermédio de um outro amigo, o Neto Costa. Comecei a compor músicas com poemas dele e, ao mesmo tempo, queria criar uma persona no palco. Ele disse: ;Por que não Rubi?; O nome pegou e digo a todo mundo que foi ele quem me batizou. Esse nome era relacionado a um dos poemas dele inspirado na Aglae Rubia, uma prima dele que se tornou uma grande amiga.

Ligação com a capital
Mesmo morando em outras cidades, continuei tendo uma grande conexão com Brasília. Uma das pessoas muito importantes na minha trajetória foi a cantora e amiga Célia Porto. Foi ela que me manteve ligado à minha cidade. Ela me contava sobre o que acontecia de interessante no cenário cultural para que eu não perdesse essa ligação. Essa mulher incrível sempre manteve o fio que me ligava às minhas origens.

Elza Soares
Moro em São Paulo desde 1992. Aqui comecei a ter mais contato com grandes referências nacionais. Recentemente, fui convidado para substituir o Celso Sim em um show da Elza Soares, no auditório do Ibirapuera. A ideia é que o substituísse para cantar ao lado de Elza a música Benedita, de autoria dele. Eu fiquei um pouco intimidado e disse ao Celso que pensaria na proposta. Ouvi música e senti a intensidade daquela letra. Fiquei honrado com o convite, aceitei e pude ver de perto a generosidade de Elza Soares. Ela é de uma grandeza, integridade e verdade tão grandes que fico emocionado só de lembrar. Quando cantamos essa música, Elza a contextualiza em um discurso carregado de esperança, elevação e grandeza. Nós ficamos tão conectados que ela pediu a ele para que eu acompanhasse ela na turnê. Sinto-me satisfeito em poder utilizar a arte para falar de temas tão latentes no Brasil contemporâneo, todos eles ligados à intolerância. Meu trabalho sempre foi pautado pela palavra. Eu canto porque eu gosto da palavra. A canção é a minha dramaturgia.

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