Ser ou não ser UE

Ser ou não ser UE

Eleitores britânicos votam na quinta-feira sobre a permanência do país na União Europeia. Os defensores de ambas as opções travam duelo de argumentos sobre as consequências de abandonar o barco

» Gabriela Walker
postado em 19/06/2016 00:00
 (foto: Niklas Halle%u2019n/AFP)
(foto: Niklas Halle%u2019n/AFP)


Após meses de campanha, os britânicos estão a quatro dias da decisão que pode mudar a história da União Europeia (UE). Na próxima quinta-feira, o Reino Unido votará se permanece ou não no bloco, atualmente formado por 28 países. Analistas e ativistas de ambos os lados destacam as consequências da eventual saída para a situação interna, para o relacionamento com os demais sócios no bloco e com os parceiros ao redor do mundo.

Caso vença o voto pela saída, o país será o primeiro a se desfiliar da UE, cujo projeto foi idealizado no pós-Segunda Guerra. De acordo com o Tratado de Lisboa, assinado em 2009, o Reino Unido terá dois anos para negociar a saída, mas a conclusão do ;divórcio; pode se estender até as próximas eleições gerais, previstas para 2020. Durante esse processo, Londres teria de negociar uma associação ao bloco, para ter acesso ao mercado único, mas o funcionamento dessa nova relação ainda é incerto.

A UE prometeu não participar de debates e campanhas sobre o Brexit, como a saída é chamada, mas o presidente da Comissão Europeia (CE, braço executivo da UE), Jean-Claude Juncker, alertou os eleitores britânicos de que opção pelo afastamento é uma decisão sem volta. Ao jornal francês Le Monde, Juncker disse que não fazia ameaças, mas frisou que ;a relação não seria como hoje;. O luxemburguês destacou que ;o Reino Unido terá de se acostumar a ser tratado como um Estado terceiro;, e não terá vantagens sobre os demais.

Uma pesquisa publicada no começo do mês pelo Instituto Pew Global mostra que 70% dos europeus acreditam que a ruptura seria algo negativo. O estudo também mostra insatisfação de muitos membros com a forma como o bloco lida com questões cruciais, como a crise de refugiados e as dificuldades econômicas. Analistas alertam que a eventual saída do Reino Unido pode favorecer pedidos de ressalvas por parte de países insatisfeitos e até ameças de novas rupturas.

Debates

O principal argumento da oposição ao bloco é de que os britânicos pagam muito caro pela parceria com a UE. Fora do bloco, ficariam livres de parte das taxas de contribuição, teriam mais controle fronteiriço e mais independência para legislar, além de maior autonomia para negociar acordos. Os defensores da permanência destacam que, apesar dos problemas da UE, a saída tem potencial para piorar a situação política e econômica interna.



Um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Econômicas do Reino Unido alertou que uma ruptura limitaria o ritmo de crescimento da economia e faria a libra se desvalorizar em até 20%. Segundo o Fundo Monetário Mundial (FMI), a saída criaria uma ;alta incerteza, volatilidade nos mercados e um crescimento mais lento;. A diretora-geral do organismo, Christine Lagarde, comentou o processo no mês passado, dizendo que uma vitória do Brexit seria ;bastante ruim, muito ruim; para os britânicos.

O cenário pós-UE incluiria fuga de investimentos e perda de empregos, principalmente os ligados ao setor bancário, uma vez que Londres deixaria de ser o coração financeiro do bloco. Segundo George Osborne, ministro das Finanças, em dois anos, cerca de 820 mil empregos serão eliminados. O executivo-chefe da Barratt Developments, maior empresa britânica de construção civil, alertou para outro problema: o fechamento das fronteiras a imigrantes levará à falta de mão de obra.

Para o especialista em estudos europeus da Universidade de Brasília (UnB) Estevão Martins, ;o Reino Unido perderia economicamente, comercialmente e financeiramente;. Ele destaca que ;permanecer oferece facilitações na escala mundial que o Reino Unido já não tem sozinho;. O think thank americano Conselho de Relações Exteriores (CFR) alertou que, além de provocar recessão, o Brexit enfraqueceria a coesão do país e da UE, e afetaria a percepção de ;quão longe a colaboração entre países pode chegar;.



Prós e contras

Conheça os argumentos dos dois campos da disputa

Política Externa
Dentro - Como membro da UE, o Reino Unido tem mais influência em questões internacionais. Apesar da crise econômica e das dificuldades enfrentadas por países como a Grécia, a economia do bloco é a mais robusta do mundo, acima de Estados Unidos e China.

Fora - A posição britânica nem sempre corresponde à da maioria dos sócios. Sair da UE significa mais autonomia diplomática, além de um assento exclusivo na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Imigração
Dentro - Em geral, o imposto pago pelos imigrantes nos países onde se instalam superam os gastos do governo local com os benefícios sociais para essa parte da população. A mão de obra estrangeira supre a demanda em setores rejeitados pela maioria dos britânicos, como a construção civil.

Fora ; O país pode reforçar o controle das fronteiras, aliviar a pressão sobre os serviços públicos e aumentar a oferta de emprego para os cidadãos. Mesmo assim, é impossível impedir completamente a chegada de estrangeiros, pois é obrigatório permitir a livre circulação de europeus em troca de acesso ao mercado do bloco.

Soberania
Dentro - O Reino Unido se beneficia de salvaguardas que garantem um ;status especial; no bloco. Entre os privilégios que negociou com os demais, está a garantia de que não será discriminado por não integrar a zona do euro, além do direito a limitar os benefícios que imigrantes europeus podem pedir no país.

Fora - Sem fazer parte da UE, os britânicos teriam mais controle sobre as próprias leis, sem o risco de políticas acordadas pelo coletivo serem impostas.

Segurança
Dentro ; O apoio e o trabalho conjunto com agências de inteligência e segurança do restante da Europa deixam o país em situação melhor para se proteger do terrorismo e combater grupos criminosos transnacionais.

Fora ; Os britânicos podem aumentar o controle fronteiriço e endurecer as políticas contra a imigração, abandonando as diretrizes europeias.

Custos e taxas
Dentro - Bilhões são investidos no país pelos vizinhos europeus. Defensores da permanência destacam que o custo pago pelo Reino Unido para se manter como membro é menor do que os benefícios obtidos, e ressaltam que outros países pagam mais por pessoa do que os britânicos. Caso opte por sair, o país ainda terá que contribuir com o orçamento da UE, para não perder o acesso ao mercado único.

Fora - Sem precisar contribuir com taxas de associação que equivalem a bilhões, o Reino Unido pode aumentar os investimentos internos em educação e segurança. Partidários do Brexit arg

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