Nas entrelinhas

Nas entrelinhas

Os principais atores do Planalto, assim, têm uma missão difícil: acompanhar a guerra aberta pela Presidência da Câmara diretamente sem carimbar um candidato natural

por Leonardo Cavalcanti leonardocavalcanti.df@dabr.com.br
postado em 19/12/2016 00:00



E 2016 ainda
não acabou



A 13 dias do fim do ano, há um certo alívio no Planalto. Pode ser algo apenas simbólico, mas, como se sabe, 2016 não foi lá muito bom mesmo para quem torceu pela queda de Dilma Rousseff, vide por exemplo o ex-ministro Geddel Vieira Lima, que um dia achou que daria ordens no Planalto até 2018. Mas agora, com o país desacelerando para as festas e as férias da burocracia de Brasília, a chegada de janeiro de 2017 traz, nos incautos jargões dos réveillons, uma esperança de tranquilidade aparente.

Uma das maiores tensões em Brasília ; e não apenas no Planalto, evidentemente ; está na Lava-Jato e, mais especificamente, nas delações da Odebrecht. Há uma crise econômica distante de precedentes, levando o país a um descrédito só comparado aos dos anos 1980, como avaliou a economista Maria Silvia Bastos Marques, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), em entrevista publicada ontem pelo Correio. ;Óbvio que não dá para distanciar uma coisa da outra (a crise econômica da política). Mas a questão econômica é real, concreta. Hoje estamos numa recessão fiscal. O Brasil tinha virado essa página, isso é que é terrível.;

Nas cordas

Os reflexos econômicos na vida do brasileiro são claros, quebramos. E qualquer pequena melhora pode ajudar o governo Michel Temer a sair das cordas. De certa forma, o Planalto mostrou força ao aprovar a PEC do teto dos gastos e, assim, decidiu apresentar um texto inicial para a reforma da Previdência. Apostou no risco no segundo caso, afinal, o projeto mexe diretamente com funcionários públicos e privados. Como não vai andar uma única casa no Congresso, o governo pode ficar apanhando durante os próximos dois meses sem conseguir aprovar a reforma. Mas esse ainda não é o maior problema. E aqui voltamos à Lava-Jato e ao tal alívio de fim de ano.

A partir de amanhã, começa o recesso na primeira instância da Justiça. Oficialmente esse período se estende até 6 de janeiro. Assim, na prática, é quase impossível que toda a papelada das 77 delações da Odebrecht seja despachada ainda hoje. Além de todos esses acordos complexos e com algumas diferenças entre si, ainda há as próprias negociações da leniência. Mesmo com o plantão no Supremo Tribunal Federal (STF), que segue de recesso até 31 de janeiro, é difícil fechar tudo mesmo ao longo do mês de janeiro.

Alívio

Assim, o alívio imediato dos políticos em Brasília parece até fazer algum sentido. Mas apenas parece. Na política, é pouco provável que, com o fim de 2016, as coisas possam ficar mais calmas. Uma das melhores definições sobre o próximo ano é que ele apenas será uma prorrogação deste. Algo como uma partida que não termina nunca. Parte do governo sabe disso e não deve baixar a guarda mesmo nos próximos dias, por mais que não possa fazer muita coisa diferente, afinal, os vazamentos das delações são inevitáveis e desgastam os envolvidos a cada notícia.

Aliados de Temer defendem que o presidente não opte por um período curto de descanso, mesmo que a agenda se acalme em janeiro. ;Neste momento, não dá para pensar em recesso, seria um sinal ruim para a população;, disse um parlamentar governista. Manter-se alerta no atual cenário de crise política e econômica seria um bom conselho dado por aliados, ainda mais com a disputa interna na base para a Presidência da Câmara dos Deputados, no início de fevereiro. Mesmo que o Planalto não mostre a cara na guerra aberta, seria inocência acreditar que cada lance será acompanhado milimetricamente, até porque o governo precisa do Congresso para aprovar, ainda no primeiro semestre de 2017, a dita reforma da Previdência.

Missão

Os principais atores do Planalto, assim, têm uma missão difícil: acompanhar a guerra diretamente sem carimbar um candidato natural. Por mais que esse pessoal tenha experiência de sobra para evitar grandes lambanças nos próximos dias, sabe-se que, no meio de uma crise, ninguém é infalível. A expectativa é de que logo na primeira semana de janeiro, os primeiros tiros sejam disparados pelos concorrentes à cadeira máxima do Legislativo. Mas não custa lembrar: 2016 ainda não acabou.

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