O trabalho precisa de mais ideias e menos burocratas

O trabalho precisa de mais ideias e menos burocratas

Em livro formado por verbetes que seguem as letras do alfabeto, sociólogo italiano Domenico de Masi sugere direções lúcidas para um mundo desorientado. Confira entrevista exclusiva ao Correio

Nahima Maciel
postado em 01/04/2017 00:00
 (foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)



A complexidade do sistema social no qual se vive hoje pode ser resumida em 26 palavras. Entre elas, estão beleza, desorientação, criatividade, partidos, trabalho, universidade e ecossistema. Vinte seis é um número que Domenico de Masi achou razoável porque corresponde às letras do alfabeto internacional. Com elas, é possível navegar por vários aspectos dos problemas que afetam as populações do planeta e ainda fazer uma graça com a ideia de um dicionário.

Em Alfabeto da sociedade desorientada ; Para entender o nosso tempo, o sociólogo italiano transforma as 26 palavras em verbetes que podem ser lidos fora da ordem e, na maioria das vezes, retomam o pensamento de Masi desenvolvido em outros de seus 12 livros. ;O escultor Constantin Brancusi, que admiro muito, disse: ;A simplicidade é uma complexidade resolvida;. Construir o alfabeto com 26 conceitos que considero fundamentais para explicar a complexidade do nosso sistema social me pareceu a maneira mais óbvia de adotar e respeitar a simplicidade. Um sistema social complexo pode ser explorado apenas a partir de uma multiplicidade de pontos de vista, como se fosse uma sessão de acupuntura;, avisa Masi.

O autor de O ócio criativo, publicado em 1995, com base em uma entrevista concedida à jornalista Maria Serena Palieri, está preocupado com os rumos da sociedade pós-industrial, e acredita que o homem tem dedicado as horas livres conquistadas após décadas de trabalho exaustivo a coisas banais com o consumo excessivo.

Masi também se sente um pouco desencantado diante da falta de paradigmas para a construção de uma sociedade justa no século 21. Se as democracias nasceram de modelos desenvolvidos durante séculos, o futuro pautado pela tecnologia e pela mecanização completa de certas tarefas é incerto e carece de exemplos. É uma tecla em que o italiano insiste há alguns anos e que não cansa de dedilhar.

Paixões
No livro, há momentos que podem ser repetitivos para quem está familiarizado com a obra de Masi e, especialmente, com O ócio criativo, mas há também muita delicadeza e poesia. No verbete dedicado à beleza, o sociólogo se pergunta o que torna a vida bela. E responde: ;Uma vida bela é uma vida em que as paixões ressurgem e se renovam continuamente, em que o risco nunca deixa de atrair a curiosidade, em que todos os eventos, incluindo o trabalho, assumem as modalidades do jogo, com suas regras e suas apostas, suas destrezas e seus golpes de sorte, seus felizes imprevistos e seus momentos de reflexão;.

Em Criatividade, as questões tratadas em O ócio criativo ressurgem naturalmente. Masi fala do trabalho, de como a geração de nossos bisavós trabalhava mais e vivia menos. Hoje, ele lembra, a mecanização do trabalho manual liberou o homem de tarefas repetitivas. O tempo de vida aumentou e as horas de trabalho diminuíram. Há espaço para o ócio, cuja consequência seria a criatividade. O problema é como o tempo livre tem sido usado. Ecossistema é um verbete muito poético. Masi começa com considerações sobres as ilhas, espaços que abrigam as mais antigas fantasias humanas.

Sempre muito erudito, embora simples na maneira de expor as referências, o sociólogo lembra de Homero e das míticas ilhas Sirenusas, de sereias e mitologias, compara o farol ao nascimento, mas também se debruça sobre problemas atuais, como o esgotamento dos recursos naturais do planeta, racismo, violência e exclusão. Entre as citações entram muitos brasileiros. Masi recorre especialmente as de Oscar Niemeyer, Heitor Villa-Lobos e Sérgio Buarque de Hollanda. Em entrevista ao Correio, o italiano fala sobre desorientação e os rumos da sociedade contemporânea.



ENTREVISTA / Domenico de Masi


Na sua opinião, qual o grau de desorientação da nossa sociedade e em que aspectos essa desorientação está mais presente?
A atual sociedade pós-industrial se formou depois da Segunda Guerra, sem haver um modelo teórico, um paradigma de referência. Não foi como muitas sociedades precedentes. Um novo modelo não nasce ao acaso e no improviso: nasce dos despojos de todos os modelos precedentes e exige um sério esforço de análise, de fantasia e de concretude, o que é uma criatividade coletiva. Seneca dizia que ;nenhum vento é favorável para o marinheiro que não sabe aonde quer ir;.
O que quer o Brasil? O que quer a Itália? Para onde vai o Ocidente? Ninguém sabe. Esse vácuo intelectual nos impede de distinguir o que é verdadeiro do que é falso, o que é belo do que é ruim, o que é bom do que é hipocrisia, o que é esquerda do que é direita. A maior desorientação está na política porque, por conta das teorias neoliberais, a política tem sido oprimida pela economia, a economia tem sido oprimida pelo mercado financeiro e o mercado financeiro tem sido oprimido pelas agências de classificação.


Quais são os grandes desafios das próximas décadas?
Os desafios serão a crise ambiental e a desigualdade social. Segundo os teóricos do decrescimento, o equilíbrio ecológico está amplamente comprometido. De acordo com Kennet Building, ;quem acredita ser possível o crescimento infinito em um mundo finito ou é um louco, ou é economista;. Se Building tiver razão, qualquer desenvolvimento é insustentável: logo, seria necessário dar um passo atrás e reduzir os níveis de consumo sem modificar os níveis de felicidade. Para absorver a quantidade de CO; produzido por cada litro de gasolina que queimamos, consumimos 5m; de floresta. O espaço bio-reprodutivo é de 1,8 hectare por cabeça.
Precisaríamos hoje de 1,3 planetas para dar conta. Se os países pobres aumentarem o consumo, como pretendem, em 2030 precisaremos de três planetas. O desflorestamento e o efeito estufa ameaçam a atmosfera e aumentam o calor. Duzentos milhões de pessoas serão obrigadas a emigrar por causa das mudanças climáticas. Por todas essas razões, (o economista) Serge Latouche defende que ;estamos a bordo de uma bola de fogo sem piloto, sem marcha, de cabeça para baixo, sem freio e que vai se chocar com os limites do planeta;.


Por que isso aconteceu?
Esse crescimento econômico desenfreado aconteceu por conta de quatro fatores: a publicidade, que alimenta artificialmente nossas necessidades; os bancos, que nos fazem contrair dívidas; a propensão a ostentar os bens como símbolos de status e poder; e a suposta obsolescência dos bens, que nos leva a substituir produtos velhos, mas ainda com validade, por produtos novos mais atraentes porque estão nas publicidades. Graças a esse ciclo infernal, um sexto da população mundial conseguiu crescer às custas do planeta, das gerações futuras, do consumo, dos trabalhadores e do Terceiro Mundo. E os países ricos sustentam que não existe alternativa.


Qual seria, na sua opinião, o caminho mais sensato?

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