Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Gustavo T. Falleiros >> gustavofalleiros.df@dabr.com.br
postado em 15/04/2017 00:00
Plano de ser feliz

Um dia, há muito tempo, havia um plano, lembra? A vida dá uns toques para que não nos esqueçamos de quem fomos. A vida passa uns recados, manda uns torpedos. ;Oi, sumido.; Dá uma piscadela e sai de fininho. A vida tem suas ironias. Os cutucões desconcertam, atordoam. A gente fica com cara de bobo até se recobrar do déjà-vu. ;Mas isso foi quando? Já aconteceu?; ;Perdoem-me se eu estiver me repetindo.;

Como se fosse ontem, vejo José Carlos Coutinho sentado nos degraus em frente à Igrejinha da 307/308 Sul. Aqueles mesmos óculos pendentes ao redor do pescoço (qual o nome dessa cordinha que segura os óculos pelas hastes?). A camisa social por dentro da calça. Uma caneta agarrada no bolso. A barba branca, como a minha está ficando (não se enganem com o 3x4). Que imagem familiar e confortante. Mas, espera, tem algo errado aí, alguma coisa está fora do lugar: essa memória não encontra lastro na realidade. Ela é falsa! Foi induzida por uma foto. Droga.

A parte que me cabe sem equívoco, lembrança autêntica, completou 18 anos de idade ; tempo necessário para se tornar adulto. Não vai ter graça se eu contar. É dessas coisas legais apenas para quem as viveu. O que dá para dizer é o seguinte: em 1999, a onda era matar as aulas de Teorias da Comunicação (Tecom), na FAC, e se mandar para a arquitetura ; os departamentos são vizinhos de Minhocão Norte, na UnB.

No mais das vezes, valia a pena, sobretudo, quando havia palestra do professor Coutinho. A forma apaixonada como ele falava de Brasília, de urbis e civitas, de Lucio Costa e Niemeyer marcou profundamente a geração de alunos, inclusive os penetras. Os calouros jamais se sentiam intimidados, pois Coutinho superava os tecnicismos com graça e simplicidade. A sensação, ao sair de sala, era a de ter se tornado um cidadão melhor, menos alienado. Mais brasiliense até.

Coutinho se aposentou, mas nunca deixou de pensar coisas bonitas e de aproveitar o que Brasília tem de melhor (o tal ;selo Coutinho de qualidade;). Sempre que o vejo na rua, lembro da canção de Paulinho da Viola Meu mundo é hoje. Nos tempos de UnB, pensei: ;Quero ser que nem o Coutinho quando crescer;. Uma aposta alta. Poderia ter quebrado a cara, não é verdade? Mas não. Surpreendentemente, continua fazendo sentido como meta. A vida brinca, dá uns esbarrões. Talvez para que não nos esqueçamos de quem somos.


Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação