A volta do bruxo dos sons

A volta do bruxo dos sons

Depois de 10 anos sem gravar, o multi-instrumentista Hermeto Paschoal lança o álbum No mundo dos sons

Irlam Rocha Lima
postado em 06/08/2017 00:00
 (foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press - 12/4/17)
(foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press - 12/4/17)


O processo criativo de Hemeto Pascoal foge completamente da formalidade. Ele não precisa se isolar num quarto da sua casa, no bairro de Jabour, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, para compor as músicas que reafirmam a genialidade que o fez conhecido como ;bruxo dos sons;. A inspiração para ele pode surgir em cima do palco ; onde costuma improvisar o tempo todo ; ou ao batucar no próprio corpo.

Aos 81 anos, o veterano compositor, arranjador e multi-instrumentista nascido em Lagoa da Canoa (Alagoas), há 10 anos sem lançar disco, está chegando ao mercado com No mundo dos sons, álbum duplo que saiu pelo selo Sesc, no qual reuniu 18 temas ; todos inéditos. Alguns deles homenageiam ;irmãos espirituais que a música me concedeu;, diz com a pureza que lhe caracteriza.

No mundo dos sons, que Hermeto gravou com seu grupo, no estúdio Gargolândia, em São Paulo, pode ser ouvido também nas plataformas digitais de streaming Spotify, Deezer, Google Play Music e Aple Music. Além de assinar a direção musical, composições e arranjos, ele toca pianos, teclados e escaletas, e utilizou instrumentos nada convencionais como berrante, apito, colher e chaleiras ; sempre com a celebrada maestria.

Hermeto, pelos seus cálculos, tem armazenado algo em torno de 9 mil composições. ; Registro tudo em cadernos, sem títulos, mas, já com os acordes. Depois, na hora da execução num show, ou em gravações de estúdio, podem até ganhar novos arranjos;, explica. ;As alterações no andamento, no entanto, não desvirtuam do que foi escrito originalmente;, acrescenta.

Ele conta que em fevereiro levou para o estúdio paulista 30 músicas. ;A maioria foi composta há muito tempo e fazia parte do meu acervo. Mas há também coisas mais recentes, embora para mim, música não tem idade, gênero ou nacionalidade. Música é universal. Criadores de outras nacionalidades compartilham espiritualmente comigo dessa ideia;.

Sobre os nomes dados aos temas, com os quais presta homenagem a compositores brasileiros, expoentes do jazz, ex-integrantes do seu grupo e familiares, ele conta que a escolha foi feita depois das músicas prontas, já na fase da remasterização.

;São irmãos de som e alguns, de forma corpórea, já não estão mais entre nós, mas mantêm-se vivos espiritualmente na minha memória afetiva;, ressalta.

Parte deles, o genial albino conheceu em diferentes períodos em que esteve nos Estados Unidos, entre o final da década de 1960 e o começo dos anos 1980. ;Em 1969, fui convidado por Airto Moreira e Flora Purim para gravar dois discos com eles. Atuei como compositor, arranjador e instrumentista. À época, conheci Miles Davis (celebrado em Para Malis Davis) e gravei Igrejinha e Nem um talvez, músicas que entraram num disco dele. Naquele tempo fiz amizade, também, com Chick Corea e Ron Carter, outros irmãos;, lembra. Para os dois, Hermeto dedicou Um abraço Chick Corea e Para Ron Carter;, lembra

Uma outra recordação que o compositor guarda é a do argentino Astor Piazzola, reverenciado em Viva Piazzolla.. ;Em 1986, Piazzola fez um show no Teatro Tuca, em São Paulo, logo após uma apresentação minha. Naquela noite, ele chegou para alguém da produção e disse: ;Vocês têm que erguer uma estátua para este homem, referindo-se a mim, o que me deixou extremamente envaidecido;.

Tom Jobim, Sivuca, Edu Lobo, Jovino Santos e Carlos Malta são grandes artistas brasileiros que deram nome a outras faixas do No mundo dos sons. ;Participei de apenas um disco do Tom, gravado nos Estados Unidos, como arranjador. Quase não nos víamos no Rio de Janeiro. Nos encontrávamos mais em aeroportos. Eu me aproximei do Edu naquele festival da TV Record, vencido por ele com a canção Ponteio. O arranjo da música foi inspirado na sonoridade do Quarteto Novo, grupo do qual eu fazia parte;.

De Sivuca, Hermeto tem uma tenra lembrança. ;Adolescente, cheguei a Recife para tentar viver de música. O Sivuca, que era mais velho do que eu, me deu oportunidade na Rádio Jornal do Comércio. Mais tarde nos reencontramos no Rio. Albino como eu, por vezes éramos confundidos. No final da vida, ele foi morar em João Pessoa e nunca mais nos vimos;. Forró da gota para Sivuca é o tributo prestado ao acordeonista paraibano.




No Mundo dos Sons
Álbum duplo de Hermeto Pascoal e grupo, com 18 faixas. Lançamento do selo Sesc. Preço sugerido: R$ 30.


Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação