Um amor que poderia ter sido

Um amor que poderia ter sido

postado em 06/08/2017 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

Com muita tranquilidade, Natália, 23 anos, afirma não saber a aparência ou as características do pai. Na última vez em que eles se encontraram, ela tinha apenas 7 anos. Aos 9, ele a assumiu no papel e passou a pagar pensão. Aos 10, quando ela sofreu uma convulsão, o pai foi informado pela mãe. Aos 14, ele a viu por fotos. E, aos 19 anos, soube que Natália havia entrado na universidade. ;Pedi que minha mãe contasse. Não sei explicar muito bem o porquê, mas acho que foi um pouco de orgulho. Uma forma de mostrar a ele até onde eu tinha chegado, mesmo sem a figura paterna;, considera.

A pouca chance de ser reconhecida pelo pai biológico fez com que Natália aceitasse contar a sua história. O sobrenome e o nome da mãe, no entanto, foram ocultados para evitar uma exposição do homem que carrega a alcunha de pai em sua carteira de identidade. Apesar de ter passado quase a vida inteira sem a presença paterna, a jovem garante não considerar a questão mal resolvida. ;Eu não posso dizer que não me afeta ou me afetou ao longo dos anos, mas não tenho problema em falar sobre o assunto. Também não guardo sentimentos ruins dentro de mim, não desejo mal a ele.;

Diante da proposta de escrever uma carta para um pai que não conhece, Natália ficou surpresa. ;Falar sobre a minha vida e a minha vivência sem um pai acaba sendo uma forma de empoderar a minha mãe. Um jeito de mostrar o quanto ela foi forte e o quanto se dedicou a mim, me fazendo também uma mulher forte. É claro que um pai fez falta em certos aspectos, mas a mãe maravilhosa que eu tenho e tive fez a minha vida plena. Eu confesso que nunca pensei no que diria a ele e, por isso, demorei um pouco para escrever essa carta.;

Entre as lacunas que ainda rondam a cabeça da jovem, surge a questão da ancestralidade. A comparação com uma tia que nunca conheceu, a possibilidade de os irmãos saberem da sua existência e as características físicas que não enxerga na família da mãe são algumas conjecturas que passam pela cabeça da universitária. ;Não sei muito bem o que aconteceu no passado e o que resultou nesse afastamento. Algumas vezes, imagino que, quando pode, ele deposita um dinheiro além da pensão. Talvez seja a forma de demonstrar algum tipo de preocupação.;

Vez ou outra, ela também se pega imaginando: ;Já posso ter passado ao lado dele;. O pensamento pode até suscitar um sentimento de ausência, mas Natália é categórica ao dizer que a mãe e os tios nunca permitiram que nada faltasse a ela. ;Principalmente, amor.;

De: Natália

Para: o pai biológico


Já não te espero para o Dia dos Pais,

no natal você não vem; no ano-novo, ;tudo novo de novo;, mas espera;

não. O mesmo.


Tempo vai, tempo vem... Os ventos mudaram. A menina cresceu. Não pergunto sobre você e tampouco falo

o seu nome. Mas, às vezes, questiono onde você está, é verdade.

Como te (re)conhecer?


Está tudo bem, não se preocupe.

Amor nunca me faltou. Eu sou

muito privilegiada. Hoje eu sei. Transbordo; luz!


A maturidade dos meus ;vinte e

poucos anos; me fez entender

que o passado também contribuiu

para o meu ser. Mas não olho mais

para trás. Apenas agradeço.


Para frente. Sempre.

Eu te perdoo e te liberto.

Seja feliz!

Eu te quero feliz!

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