Paternidade programada

Paternidade programada

Tutores de cachorros machos devem programar a cruza dos animais. São necessárias cautela e transparência na hora de estabelecer as regras do processo com os donos das fêmeas e de acordar a divisão da ninhada

Por Carolina Militão*
postado em 06/08/2017 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

O cruzamento entre cachorros ; ou a cobertura, como o processo é chamado pelos veterinários ;, é um processo delicado, que exige cuidados, cautela e clareza, desde a escolha do animal até o acordo da divisão dos filhotes. O tema levanta dúvidas sobre qual o tamanho ideal dos cachorros; quais as raças (com ou sem pedigree) podem realizar a cruza e quais são os direitos e os deveres dos donos do padreador (o macho) e dos tutores da cadela.

Fernando Toniol, gestor da Pet Especialidades Centro Veterinário e ex-presidente do Kennel Clube de Brasília (KCB), explica que a cobertura pode acontecer por via natural ou por inseminação artificial. Antes, porém, os animais precisam passar por uma avaliação veterinária para verificar a condição de saúde deles. Além disso, o casal selecionado para a procriação deverá ter o mesmo porte para evitar problemas gestacionais e complicações no parto.

Faruk, por exemplo, é um pug da cor abricot, atualmente, o tom mais comum no Brasil. Ele tem 5 anos e é padreador desde 1 ano e 6 meses. Nesse período, já participou de muitos encontros promovidos para cruzar. A advogada e dona do cãozinho, Roselane Cristina Matos, é fundadora do Clube dos Pugs de Brasília e conta que, antes de aceitar os pedidos para a cobertura, ela se certifica se as vacinas da fêmea estão em dia; investiga o histórico de doenças transmissíveis, como sarna demodécica e dermatites, por exemplo, e, só depois, seleciona a candidata, sempre da mesma raça.

Já Anna Carolina Barreto, uma das proprietárias do canil de reprodução Brasília Border, antes de submeter os reprodutores ao cruzamento, realiza o estudo genético do macho e da fêmea. O objetivo é conhecer, minuciosamente, a linhagem de cada um e as características visuais, como cores e pelagem, para evitar que os filhotes nasçam com alguma deficiência física ou patológica. ;É necessário prevenir e estudar antes de cruzar os cachorros para não haver surpresas desagradáveis no nascimento da ninhada;, esclarece Anna.

Direitos e deveres

Tomadas as precauções para selecionar o casal, a cobertura acontece quando a cadela está no 12; dia do cio. Ela deverá ser encaminhada para o canil ou o macho será levado para a casa dela. Isso vai depender do contrato previamente estabelecido entre os donos dos animais.

A fêmea permanece com o padreador por cerca de cinco dias, enquanto o coito é monitorado. ;A maior probabilidade de sucesso da cobertura acontece quando o osso peniano do macho se prende à vulva da fêmea. A partir desse ato, a gestação dura, aproximadamente, sessenta dias até o nascimento dos filhotes;, esclareceu Roselane.

Se forem necessários procedimentos invasivos ou cirúrgicos, como inseminação artificial ou cesárea, os custos e a ninhada deverão ser divididos entre o dono do macho e o da cadela. ;Além disso, é imprescindível ser definido quem escolhe primeiro os filhotes, para evitar discussões posteriores;, orienta Fernando.

Uma vez a ninhada nasça, não há nenhuma regra oficial que defina como deve ser a divisão da prole ou como funcionará a guarda dos filhotes. Fernando diz que é praxe o seguinte acordo: até quatro nascidos, um pertence ao dono do macho. Já em uma ninhada de cinco ou mais filhotes, dois ficam com o pai.

No Canil Brasília Border, a negociação acontece da seguinte forma: a cada três filhotes nascidos, um é dado ao cuidador do macho. Ao completar sessenta dias de vida, os filhotes são entregues com pedigree, microchip, primeira vacina e controle de verminose. ;O dono do macho tem direito de escolher primeiro os filhotes ou negociamos um valor pela cruza, independentemente do número de crias;, explica a proprietária, Anna Barreto.

Janaína Amorim Correa é tutora de Bailey, um biewer terrier puro e galanteador, de 3 anos e meio. Ele já fez sete coberturas e ela garante que nunca teve problemas na divisão da ninhada, pois sempre faz uma seleção criteriosa dos tutores da cadela que fará o acasalamento. ;Quando é aceito o acordo, o padreador vai para a casa da fêmea e fica lá durante o período do cio. Logo em seguida, ele retorna para casa;, explica Janaína.

Após o nascimento, Janaína fica com um ou dois filhotes de Bailey, podendo escolher entre o macho ou a fêmea, e se preferir, até vender a cobertura e, nesse caso, todas as crias ficam com a dona da fêmea. Ela reforça, porém, que ;tudo tem que ser acordado previamente para não ter problemas futuros;. O contrato pode ser feito de modo verbal ou escrito, ela sugere.


* Estagiária sob a supervisão de Flávia Duarte

Cobertura segura e sem contratempos:

  • Quem deseja promover a cruza de seu cão deve se planejar para receber a ninhada e ter certeza de que terá habilidade e disposição para cuidar bem dos novos filhotes e da fêmea;
  • Antes de realizar o cruzamento, leve-o para ser examinado por médico veterinário;
  • Certifique-se de ter recursos financeiros suficientes para arcar com os custos, inclusive com imprevistos, como a necessidade de um parto cirúrgico;
  • Um bom processo de cobertura respeita o período correto para cruza. Os machos podem começar as cruzas aos 18 meses, já as fêmeas só devem ser postas para cruzamento a partir do terceiro cio;
  • A pré-formalização de um contrato de cruza entre os donos dos animais é essencial para evitar desavenças e disputas posteriores ao nascimento da ninhada;
  • O melhor local para a cruza é sempre no espaço em que o macho vive, pois facilita a submissão da fêmea (no ambiente da fêmea, ela pode se tornar agressiva e não aceitar o macho, resultando em um acasalamento frustrado);
  • Após o sucesso do acasalamento, o acompanhamento da fêmea por veterinário deve ser feito durante toda gestação e a sua alimentação deve ser suplementada conforme orientação do profissional;
  • Com a chegada da ninhada, deve-se ficar atento ao calendário de vacinação e vermifugação dos filhotes;
  • Caso não tenha interesse na procriação de seus pets, a castração é a melhor opção. O procedimento evita ninhadas indesejadas, doenças mamárias, uterinas, prostáticas e prolonga a vida do seu melhor amigo.

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