A ação odiosa dos covardes

A ação odiosa dos covardes

Leonardo Cavalcanti leonardocavalcanti.df@dabr.com.br
postado em 19/03/2018 00:00

É inevitável o debate político sobre a execução da vereadora Marielle Franco. Aliás, é essencial. A partir da repercussão da tragédia anunciada, confirma-se a fragilidade do Estado em relação às milícias, à banda podre da polícia fluminense e aos traficantes. Marielle morreu durante uma intervenção federal, que, até o momento, não se sabe muito sobre a estratégia de retomada dos morros pelo poder público ; se é que ela existe ; ou mesmo sobre o orçamento, este apenas divulgado ontem à noite, depois de uma reunião ministerial.

Quando a imprensa ; e setores sociais, acadêmicos, profissionais ou simplesmente interessados ; discute o tema, chamando gente comprometida para o debate, o faz por um único motivo: tentar explicar a tragédia que se abateu sobre o Rio, ampliando a capacidade de discutir políticas públicas. Aqui, entre outros pontos, o foco está nas análises de impacto, algo que deveria ser levado em conta em toda a ação dos poderes. Tais análises são capazes de prever cenários caso determinadas medidas, como a própria intervenção ou mesmo projetos em tramitação no Congresso, sejam tomadas ou aprovadas. Se o próprio poder público não faz o debate, sobra para a própria sociedade.

Assim, cabe aos grupos da sociedade defender pontos de vista, visões estratégicas e fazer política rasa e partidária ; sim, acontece. O jogo democrático é feito de excelência e cinismo em qualquer parte do mundo. Quando os deputados da bancada da bala defendem a quebra do controle sobre os armamentos, eles estão sendo cínicos, pois não há uma mísera análise de impacto positiva sobre os efeitos de atacar o Estatuto do Desarmamento. Ao contrário. A chance de morrer mais gente, e a arma não defender o ;cidadão de bem;, é enorme, a partir de estudos, por exemplo, do professor Daniel Cerqueira, do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea).

Cinismo

O cinismo da bancada da bala, neste caso do descontrole sobre a venda de pistolas e revólveres, deve ser exposto, a partir da cobrança de regras mais claras sobre financiamento eleitoral e sobre ações de lobby da indústria das armas no Executivo e no Legislativo. No mais, é enfrentar o debate aberto. O problema é quando esse pessoal da bala começa a jogar ainda mais sujo, com mentiras e ações falsas nas redes sociais. Aí vira covardia. No caso da execução de Marielle Franco, é o que vem ocorrendo. A vereadora não merece ser morta mais uma vez pela ação de pessoas que apresentam notícias velhas como se fossem novas ou simplesmente espalhem boatos.

A ação contra Marielle foi planejada por gente preparada. A simbologia e a repercussão são imediatas, e isso não tem nada a ver com diferenças entre assassinados. A relação está puramente na capacidade de ampliar o debate. Ser contra isso é defender a atual situação e as mortes de civis e policiais todos os dias. É defender que tudo permaneça do mesmo jeito ou pior, pois cada vez mais nos aproximamos de guerras civis como a da Colômbia nos anos 1980.

Deputados ou qualquer autoridade que tenta se aproveitar desse caso para embaralhar o debate são covardes, gente da pior qualidade, que, sem condições de entrar numa discussão séria de como aperfeiçoar os mecanismos de controle, joga sujo com as fake news. A eles, todo o desprezo. São covardes que devem ser responsabilizados.

Lobby desvendado

Amanhã, será lançado, em São Paulo, o livro Lobby desvendado: políticas públicas, corrupção e democracia no Brasil Contemporâneo (Editora Record), organizado por Milton Seligman e Fernando Melo. Com contribuições de acadêmicos, profissionais de relações governamentais e jornalistas, a obra trata da regulamentação, experiências internacionais, integridade nos contatos com os poderes, além de outros temas. O evento será no Insper, rua Quatá, 300, às 19h.

Deputados e autoridades que tentam se aproveitar da execução de Marielle para embaralhar o debate são fascistas, que jogam sujo com as fake news. A eles, todo o desprezo

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