Segunda dentição

Segunda dentição

» ANDRÉ GUSTAVO STUMPF Jornalista
postado em 14/05/2018 00:00

Diversas pesquisas quantitativas que os partidos políticos estão realizando indicam o mesmo fenômeno: o brasileiro está indignado, humilhado, ofendido, revoltado e absolutamente descrente dos políticos nacionais. A roubalheira destampada pela Polícia Federal em todos os quadrantes do cenário político-partidário não poupa ninguém. Lula, o ex-presidente preso, é quem reúne mais apoio para eventual disputa à Presidência da República. Mas é também quem possui a maior rejeição. O desprezo dedicado aos demais é proporcional à sua respectiva exposição pública.

Em bom português, não está bom para ninguém. A sensação de que o que povo quer desmanchar o atual cenário nacional embala solitariamente Jair Bolsonaro. Ele não é candidato dele, nem de suas ideias ou de seu eventual protagonismo. Ele é candidato deste sentimento de revolta profunda, de indignação em altíssimo grau que domina o eleitorado brasileiro. O candidato sabe disso e abusa de respostas diretas. Incentiva a prisão de ladrões e bandidos. Joga duro contra a polícia e ataca a imprensa, como sendo conivente com o atual estado de coisas. Resultado: ele tem o melhor nível de aprovação ante o eleitorado.

Marqueteiros de partidos importantes começam a se preocupar com a candidatura do deputado carioca. Não será fácil desconstruí-la, porque ela representa esse coletivo de frustrações nacionais. Seria o símbolo da revanche. Com ele, os brasileiros estariam protegidos e os bandidos iriam para a cadeia. A promessa implícita é de que a criminalidade nas cidades deve cair porque ele vai dar todo oprestígio aos policiais. Essa é a visão simplista que as pesquisas de opinião revelam. Por essa razão, o candidato não explicita ideias, projetos ou programas. Há um receio de que ele não tenha projeto nenhum. Ele trabalha objetivamente para chegar ao Palácio do Planalto.

Essa circunstância explica a marcha de sucessivas desistências: o apresentador Luciano Hulk, o treinador de vôlei Bernardinho, Joaquim Barbosa ; que não quis deixar a sua tranquilidade do Leblon ; e mais recentemente Michel Temer. Lula não será candidato por força das trapalhadas em que se meteu. Foi condenado em primeira e segunda instâncias. Seus advogados perderam mais uma ação no Supremo Tribunal Federal nesta semana. A esquerda brasileira não evoluiu. Permaneceu com as ideias revolucionárias de 1968. Não alcançou a segunda dentição.

Palavras e atos do recentíssimo desgoverno Dilma Rousseff lembram preocupações nacionalistas das administrações militares. Extrema-esquerda e extrema-direita se encontram. A reserva de mercado no setor de informática foi defendida pelos dois extremos. A consequência foi colocar o Brasil fora do mercado e na mão dos contrabandistas de computadores.

Os partidos de esquerda carregam o pesado fardo de representar governos ineficientes, corruptos e chefiados por dirigentes também corruptos. Não é novidade. Os países comunistas do Leste Europeu terminaram da mesma maneira. Suas administrações foram envolvidas em desastrosas transações. A Alemanha Oriental sumiu do mapa e da história.


Não tinha viabilidade econômica, mas sua elite enriqueceu com empréstimos originários da Alemanha Ocidental. Nas Américas, coisas semelhantes acontecem. O regime de Nicolás Maduro, na Venezuela, é mantido pelo serviço secreto cubano e pelo tráfico de drogas que enriquece seus comandantes. E Daniel Ortega, ídolo sandinista, está no seu quarto mandato.
Outros candidatos vão sair da disputa no Brasil ao longo do mês. Na verdade, a corrida agora é por montar as composições entre partidos. Restarão poucas opções. E o tempo de televisão vai privilegiar os grandes partidos. Isso significa que a fase mais importante, antes da eleição, é a atual. A escolha dos parceiros aumentará a exposição pública na televisão e no rádio. Em teoria, maior tempo deverá resultar em maior votação. Nem sempre é assim. O candidato precisa ser artista para conquistar o eleitor com palavras, projetos ou promessas.

A esquerda precisa se compor entre si. Sem acordo, não chegará ao segundo turno. Esse é o esforço de Ciro Gomes, que pretende herdar, por gravidade, o espólio do Partido dos Trabalhadores. No centro, Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, Rodrigo Maia e Álvaro Dias disputam o privilégio de comandar uma chapa. Divisão nesse caso também será suicídio. Na direita, Bolsonaro, sozinho, e com tempo ridículo de televisão, tenta representar a indignação nacional. A história não vai acabar nesta eleição.

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