Nas entrelinhas

Nas entrelinhas

por Leonardo Cavalcanti leonardocavalcanti.df@dabr.com.br
postado em 15/10/2018 00:00
A falta de um plano do PT para 2; turno

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha um plano antes do início. Refiro-me ao começo da prisão do petista, ainda no mês de abril. A estratégia, mesmo com ele atrás das grades, era fazer o registro da candidatura e estender ao máximo a própria presença na corrida ao Palácio do Planalto. Os advogados enxergaram uma brecha na legislação eleitoral, aquela que permitia a inscrição na disputa, e o comandante do PT apostou todas as fichas no único jogo possível naquele momento. Antes, porém, prolongou um tanto a rendição à Polícia Federal para gravar vídeos e mensagens de apoio ao verdadeiro presidenciável da legenda, Fernando Haddad, o nome de Lula, mesmo diante da falta de consenso entre os petistas.

Enquanto Lula esteve na disputa, liderou as pesquisas de intenção de votos tendo o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) ainda num distante ; mas não menos impactante ; segundo lugar. Fernando Haddad no papel de vice de mentirinha tentava ganhar alguma projeção, mas sem se assumir como candidato, o que só ocorreu com o veto do registro da candidatura de Lula. O plano já tinha dado certo. O ex-presidente mostrou ali que o faro político ainda estava com ele. Apesar de o capitão reformado do Exército assumir o primeiro lugar na corrida ao Planalto com a saída do ex-presidente, o ex-prefeito de São Paulo conseguiu crescer até mais rápido do que previa inicialmente o mais otimista dos petistas com a estratégia de Lula.

Facada

A partir daí, Haddad conseguiu se desgarrar do pelotão Ciro-Alckmin-Marina e chegou ao segundo turno, mesmo atrás de Bolsonaro, que cresceu de maneira exponencial desde a facada em Juiz de Fora (MG). A primeira dificuldade para os petistas a partir de agora é que, se antes havia um bom plano elaborado por Lula, agora não existe nem mesmo um discurso capaz de levar o ex-prefeito a se transformar num adversário em potencial ; tudo dificultado pela ausência de Bolsonaro dos debates. Numa dianteira confortável nas pesquisas de intenção de voto, ele pode se dar ao luxo de evitar o confronto de ideias mais amplas de um país, algo que mostraria dificuldades, principalmente na área de segurança, em que a solução estapafúrdia é liberar as armas à população.

Enquanto no primeiro turno era necessário para Haddad estar colado em Lula para buscar a transferência de votos, agora tudo muda de figura. Além de aparentemente ter atingido o teto dos apoios do ex-presidente, o ex-prefeito de São Paulo absorveu o oceano de rejeição do PT, apenas comparável à própria desaprovação de Bolsonaro. Na prática, os cérebros da campanha de Haddad não conseguiram definir um discurso contrário ao avanço do capitão reformado. É possível até culpar as operações policiais contra os principais atores petistas, o ativismo de juízes e, até mesmo, a ruína com a popularidade do governo Michel Temer, mas isso nunca se mostrou uma estratégia capaz de avançar sobre os eleitores para além daqueles mais fiéis a Lula ; criticar o emedebista, por exemplo, até Bolsonaro o faz.

Por mais que na disputa direta do segundo turno um voto conquistado signifique um tirado do adversário, apoios consolidados ao capitão reformado e a alta rejeição do PT em estratos populacionais com mais educação e renda dificultam qualquer estratégia, por melhor que seja. Os acenos dos candidatos aos governos estaduais no segundo turno a Bolsonaro também são um componente importante a considerar; afinal, estimula ainda mais a disputa polarizada, que favorece o candidato do PSL. No fim, o PT ainda não sabe como avançar. O problema: faltam apenas duas semanas para o jogo acabar.

Violência

As covardes agressões de apoiadores de Bolsonaro já passaram dos limites. E não vale mais o capitão dizer que não é com ele. O discurso do ex-capitão do Exército nunca foi moderado, abrindo a porta para infames correligionários. Ou se começa a estabelecer uma rejeição completa por parte da campanha a tais atos, ou os covardes avançam ainda mais sobre mulheres e homossexuais, como já vem o ocorrendo há pelo menos uma semana. As autoridades também devem se pronunciar. A responsabilidade pela selvageria é de todos, inclusive dos adversários, que precisam ter responsabilidade na reação e nos atos.

Se a estratégia de Lula deu certo e levou o afilhado político, Fernando Haddad, a mais uma etapa da corrida ao Palácio do Planalto, o mesmo não pode ser dito neste momento da disputa. Os petistas nem mesmo conseguiram encaixar um discurso para conquistar eleitores

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