Pena capital para assassinos de Khashoggi

Pena capital para assassinos de Khashoggi

Tribunal de Riad conclui que homicídio de jornalista não foi premeditado, condena cinco à morte e três a penas de até 24 anos de prisão, mas absolve os dois principais suspeitos, colaboradores próximos do príncipe herdeiro

postado em 24/12/2019 00:00
 (foto: Mohammed Al-Shaikh/AFP - 15/12/14)
(foto: Mohammed Al-Shaikh/AFP - 15/12/14)


Ao fim de um julgamento realizado a portas fechadas, a Arábia Saudita anunciou ontem que cinco homens foram sentenciados à pena de morte por envolvimento no assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, severo crítico do regime, estrangulado e esquartejado no consulado do reino em Istambul. O crime, de grande repercussão internacional, manchou a imagem do reino e, em especial, do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, sobre quem recaíram suspeitas de ser o mandante do homicídio.

;Concluímos que o assassinato de Khashoggi não foi premeditado;, destacou o procurador saudita Shalaan al-Shalaan, em um comunicado. No total, foram 11 os denunciados pelo assassinato, ocorrido em outubro de 2018. Três acusados receberam penas de até 24 anos de prisão ; os nomes deles e dos sentenciados à morte não foram divulgados.

Outros três foram absolvidos, entre eles, o conselheiro do príncipe herdeiro, Saud al-Qahtani, e o número dois do serviço de Inteligência, general Ahmed al-Assiri. De acordo com o procurador, Al-Qahtani foi investigado, mas nem chegou a ser levado a julgamento por ;falta de provas;.

O conselheiro real, que dirigiu violentas campanhas nas redes sociais contra opositores sauditas, não aparece em público desde o início do caso, que mergulhou o reino em uma de suas piores crises diplomáticas.

Por sua vez, Al-Assiri, suspeito de ter supervisionado o crime e de ter sido orientado pelo conselheiro do príncipe herdeiro, foi absolvido pelas mesmas razões. O procurador afirmou que, ao longo do processo, a Justiça de Riad realizou nove audiências, com a presença de integrantes da comunidade internacional e de parentes de Khashoggi, colaborador do jornal norte-americano The Washington Post.

Maher Mutreb, um agente da Inteligência que viajava frequentemente com o príncipe herdeiro para o exterior, o especialista forense Salah al-Tubaigy e Fahad al-Balawi, membro da Guarda Real saudita, também estariam entre os investigados. Não há informações oficiais, porém, sobre a situação deles no julgamento. Fontes disseram que muitos dos réus se defenderam no tribunal, alegando que cumpriam ordens de Al-Assiri, que teria sido descrito como o ;líder; da operação.

Repercussão

Na avaliação de críticos do regime saudita, o julgamento foi uma tentativa de limpar a imagem deteriorada do reino. Mas o resultado não conveceu os representantes de entidades de defesa de direitos humanos. ;O veredito serve para mascarar e não fornece justiça, nem verdade, para Jamal Khashoggi e seus parentes;, reagiu Lynn Maalouf, diretora de investigações sobre o Oriente Médio da Anistia Internacional.

A chancelaria britânica pediu que o governo saudita ;garanta que todos os envolvidos (nesse crime) sejam responsabilizados;. E o governo da Turquia, onde o crime foi praticado, considerou que o desfecho do julgamento ;está longe de responder às expectativas do nosso país e da comunidade internacional;.

A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) considerou que ;a Justiça foi desrespeitada;. Para Christophe Deloire, secretário-geral da RSF, o julgamento não respeitou os ;princípios de Justiça internacionalmente reconhecidos; e pode ser ;uma maneira de silenciar as testemunhas do assassinato para sempre;.

O governo americano também reagiu, considerando que foi dado um ;passo importante; no caso Khashoggi. Ao mesmo tempo, contudo, pediu ;mais transparência; aos sauditas. Logo após o crime, a CIA e uma especialista da ONU apontaram a participação do príncipe herdeiro, que sempre negou a acusação. O presidente Donald Trump se recusou a acompanhar a avaliação e sustentou que não havia evidências sólidas sobre o envolvimento de Mohammed Bin Salman.

Vídeo

A última imagem de Jamal Khashoggi vivo foi registrada por câmeras de segurança quando o jornalista entrava no consulado saudita em Istambul, em 2 de outubro do ano passado. Ele teria ido à representação diplomática buscar um documento para se casar com a sua noiva turca, Hatice Cengiz, que o esperou do lado de fora. O jornalista não deixou o local.

Após 17 dias, o reino indicou que Khashoggi estava morto, mas as circunstâncias permaneceram misteriosas. Após ter apresentado várias versões para o assassinato, as autoridades sauditas informaram que ele foi cometido por agentes que agiram sozinhos e sem a ordem de superiores. Bin Salman e o pai, o rei Salman bin Abdulaziz Al Saud, receberam parentes do jornalista no palácio, em Riad

As autoridades da Turquia, que investigaram o caso, concluíram que o colaborador do Washington Post foi estrangulado e teve o corpo cortado em pedaços por uma equipe de 15 homens vindos de Riad. Os restos mortais nunca foram encontrados.

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