ARTIGO

Benjamin Salles Duarte*
postado em 03/03/2014 00:00
Solo, grande aliado

O solo é a base física não apenas da produção agropecuária e florestal, indispensável, como também é um fator econômico e ainda abriga a fauna e a flora. Além disso, os solos, numa perspectiva mais abrangente, são os espaços coletores das chuvas, que geram alimentos e permitem que a água, por infiltração, abasteça os lençóis subterrâneos que revitalizam as nascentes e recarregam também as águas mais profundas. Dependendo da rocha matriz que lhe dá origem e dos fatores que atuam na sua desagregação, para se tornar terra são necessários milhares de anos. O solo é uma espécie de patrimônio milenar da humanidade com seus atuais 7 bilhões de habitantes/consumidores e estimando-se até 9,2 bilhões em 2050. A dilapidação desse recurso natural tem consequências gravíssimas para a sociedade, seja ela urbana ou rural, e a recuperação desses passivos ambientais custa bilhões de dólares à medida que se aproxima até da desertificação, que resulta da conjunção de fatores adversos de considerável expressão geográfica.
Em matéria de recursos naturais, que passam pelas disponibilidades hídricas, a tese da abundância deve ser definitivamente descartada, pois em tudo há um limite que não pode também romper o princípio da sustentabilidade socioeconômica e ambiental. Por ter que acessar um vasto elenco de inovações tecnológicas nas artes de plantar, criar, abastecer, preservar e recuperar, os empreendedores rurais, sem definir categorias, têm um recorrente desafio à frente e dependem não somente das políticas públicas, estímulos, mercados e adoções tecnológicas. É preciso que sua missão multifuncional seja compreendida como estratégica para Minas Gerais e para o país. Estigmatizar o produtor é uma prática minimamente condenável e pode derivar de preconceitos. Também pode ser fruto de desconhecimento do que ocorre dentro da porteira da fazenda num país com 85% da população nas cidades, que exigem com regularidade os produtos agrícolas, pecuários, florestais. Vale lembrar que o Brasil também depende muito das exportações do agronegócio.
O solo é um sistema integrado, complexo e vivo por decorrência de fenômenos químicos, físicos e biológicos, interligados, e também devido às condicionantes climáticas. Nele se fazem as intervenções humanas e se não houver a adoção de boas práticas agrossilvipastoris, a sua degradação será num ritmo sequencial num horizonte de tempo e, numa de suas vertentes, encarecendo os custos de produção. Apenas para efeito didático, cálculos estimativos e tomando-se as 10 culturas mais importantes em Minas Gerais num regime médio de 1.300 milímetros de chuvas anuais, declividade de 8,5% a 12,8% nos diferentes tipos de solos presumem perda que pode chegar aos 76 milhões de toneladas anuais, ou até 2,171 milhões de carretas transportando 35 toneladas de terra levada pela erosão laminar e profunda.
Além disso, um solo a descoberto eleva sua temperatura, aumenta a erosão pelo impacto das gotas de chuva, perdem-se nutrientes e matéria orgânica, acelera a velocidade das águas superficiais, prejudica a fauna e a flora, provoca enchentes, polui os cursos de água, reduz drasticamente a infiltração das chuvas e outras consequências adversas dentro e fora da porteira da fazenda. A natureza é extremamente sensível às intervenções casuísticas e aos descuidos ambientais. E a ciência e a tecnologia ajudam na tomada correta de decisão no campo.
E as práticas conservacionistas? Elas custam dinheiro e o manejo correto desse solo é a solução recomendável. As inovações estão disponíveis, entre as quais plantio em nível, plantio direto na palha, rotação de culturas, divisão de pastagens, terraceamentos, pousio (descanso da terra), matas de topo, integração lavoura, pecuária e floresta, controle dos agrotóxicos, calagens, adubações orgânicas, análise do solo para calibrar os fertilizantes, e sem falar nos efeitos benéficos das reservas legais, áreas de preservação permanente e outras práticas ambientais corretas, sem perder de vista os focos econômico e de mercado. Segundo o Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2006), ainda vigente, os 551.617 estabelecimentos rurais no estado ocupam uma área bruta de 32,6 milhões de hectares, ou 55,4% da área territorial mineira, que é de 58,8 milhões de hectares. Um cenário de grandes virtudes e históricos problemas ainda não solucionados.

* Engenheiro-agrônomo

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