Protestos na fase do "leilão" de demandas

Protestos na fase do "leilão" de demandas

Visibilidade com a proximidade da Copa e das eleições inaugura a etapa dos atos populares capitaneados por categorias profissionais em busca de melhores condições de trabalho

ÉTORE MEDEIROS
postado em 10/05/2014 00:00
 (foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)
(foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

A pouco mais de um mês do início da Copa do Mundo, as manifestações voltaram a se intensificar pelo Brasil. Diferentemente dos protestos de 2013, em que jovens clamavam por uma infinidade de pautas difusas, os manifestantes de agora têm reivindicações específicas e maior bagagem política. Atraídos pela alta visibilidade trazida pelo evento esportivo ; e pela proximidade das eleições ;, vários sindicatos e movimentos sociais preparam atos, ocupações e greves para as semanas em que todos os olhos do mundo estarão voltados para o país. É a nova face dos protestos, que especialistas já classificam de ;leilão de reivindicações;.

Depois de atos em nove cidades e 467 ônibus danificados durante a paralisação dos motoristas no Rio de Janeiro, na quinta-feira, o dia de ontem foi mais calmo, embora tenham sido registrados protestos na capital fluminense. Uma passeata de vigilantes em greve movimentou os arredores do estádio do Maracanã, atrapalhando o trânsito, mas sem confrontos ou depredações. Os rodoviários cariocas voltaram às ruas, mas sem violência. Em Belo Horizonte, funcionários terceirizados do metrô fizeram uma paralisação, que não chegou a causar transtornos aos passageiros.

Com a proximidade da Copa, no entanto, aumenta a chantagem de categorias com grande poder de mobilização ou que trabalhem em funções essenciais para o funcionamento das cidades sedes do torneio. É o caso dos garis em greve em Fortaleza, dos metroviários em Belo Horizonte, dos motoristas de ônibus no Rio, na capital mineira e no estado de São Paulo, dos movimentos de sem terra e de sem teto. Somem-se isso à ameaça de greve geral por parte dos servidores públicos federais e o resultado é um cenário caótico durante a competição ; e às vésperas das eleições de outubro.

Na quinta-feira, a presidente Dilma Rousseff recebeu em São Paulo representantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e prometeu a inclusão das demandas do grupo no Programa Minha Casa, Minha Vida. ;Foi uma reunião em que ela (presidente) ouviu e não resolveu nada. Mas foi o começo de uma série de reivindicações que estamos apresentando;, comenta Natália Szermeta, da coordenação estadual do MTST, que garante mais protestos nas próximas semanas, em uma jornada de lutas integrada, entre vários movimentos, batizada de ;Copa sem povo;. ;Queremos questionar o caráter antipopular do evento, feito para a elite, mas com recursos públicos;, reclama Natália.

Pressão
Para o professor David Fleischer, cientista político da Universidade de Brasília (UnB), a presença de movimentos sociais mais organizados vai aumentar a pressão por demandas específicas, bem diferente dos pedidos difusos da juventude que foi às ruas em 2013. ;Todos esses grupos vão aproveitar o momento, isso vai crescer nas próximas semanas;, prevê. Como exemplo, ele cita o encontro da presidente com o MTST. ;É um indício da importância que Dilma está dando aos movimentos.; Ele ressalta, no entanto, que, ao receber o MTST, Dilma ;incentiva todos os outros grupos a pedirem mundos e fundos, para ver se ela vai atender;.

;Pelo menos a selfie com a presidente está garantida, para mostrar para as bases;, ironiza o analista de risco político Paulo Kramer. Na mesma linha de Fleischer, ele acredita que vai acontecer ;um verdadeiro leilão de reivindicações, aproveitando o momento sensível por que passa a popularidade da presidente Dilma e a oportunidade midiática trazida pela Copa do Mundo;. ;Que vai ter manifestação, não tenha dúvida. Elas virão, vão desgastar os governos estaduais, o federal, e até os prefeitos das grandes cidades. Não digo que Dilma vai perder a eleição por causa dos protestos, por exemplo, mas acho difícil os governos capitalizarem alguma coisa boa para si nessa Copa do Mundo;, analisa.

"Haverá um leilão de reivindicações, aproveitando o momento sensível por que passa a popularidade da presidente Dilma e a oportunidade midiática trazida pela Copa"
Paulo Kramer, analista de risco político

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