Fábula sobre a leitura

Fábula sobre a leitura

José Rezende Jr. lança hoje seu primeiro livro infantojuvenil. Ele se baseou em um episódio real para falar sobre a literatura e o abismo entre classes sociais

Mariana Vieira
postado em 17/05/2014 00:00


A cena é conhecida e cotidiana. Um menino mirrado, quase invisível, se aproxima, olhos alertas, mãos em concha, prestes a fazer um pedido. E se o que ele deseja não fosse dinheiro nem comida, mas um livro? Esse foi o ponto de partida para que José Rezende Jr começasse a escrever Fábula urbana. ;Faz mais de 10 anos que eu estava num shopping e algo parecido aconteceu, e isso ficou na minha cabeça;, conta. Avesso aos escritos biográficos, ele garante que foi parcialmente baseado na vida real. ;Faz parte do meu processo, não que eu anote, mas fatos distantes ficam armazenados na memória e servem de motivação para escrever histórias. Mas eu acho que pode ter acontecido com outras pessoas;.

Com o tempo, Rezende acabou escrevendo um conto, sua especialidade. O mineiro de Aymorés, radicado há 25 anos em Brasília, ganhou em 2010 o prêmio Jabuti nesta categoria pelo livro Eu perguntei para o velho se ele queria morrer. ;Escrevi um conto do jeito que eu achei que a história deveria ser contada. Foi o amigo Tino Freitas que acabou mostrando isso para a editora, que enxergou ali uma história infantojuvenil, e eu me surpreendi;, conta.

A história ganhou nova roupagem e ilustrações do curitibano Rogério Coelho. ;O livro cresceu com as ilustrações. E também, depois dessa experiência, me deu vontade de escrever para esse público, aos poucos estou entendendo como falar com os jovens;, conta Rezende. Para ele, a literatura infantojuvenil brasileira vive um momento ascendente. ;Houve um tempo em que livro de criança era considerado uma coisa menor. Ultimamente, se vê trabalhos incríveis, inteligentes, perdeu essa aura de educativo;, considera. Assim como uma fábula pode propor uma lição de moral, Rezende acredita que a vocação da literatura para os jovens leitores é ;ser mais um espaço de reflexão, que permita que o jovem leitor construa suas próprias ideias sobre o mundo;, diz.

Padrinho
Tino, também autor e coordenador do projeto Roedores de Livro, que promove a leitura infantil em Ceilândia, se considera um padrinho do livro do amigo, e elogia; ;Eu achei que essa história cabia tanto para os pais quanto para os filhos;. Para ele, é importante que se chegue aos jovens leitores em formatos atraente, mas sem perder em conteúdo. ;O que me pegou no texto do José foi a qualidade, é um conteúdo original de um autor contemporâneo e um tema muito atual;, pondera Tino.

Os dois estarão hoje à tarde no auditório da Livraria Cultura para leitura e debate. Um fato curioso; o lançamento dentro de um shopping de uma história na qual este mesmo espaço é fundamental na trama. ;Isso é proposital, não acho que seja contradição, faz parte do processo. Se algum menino me pedir um livro no lançamento, claro que dou, eu ia ficar muito feliz!”, garante Rezende Jr.



Trecho
;A resposta escapuliu num refluxo, automática.Uma resposta-padrão, como se fosse aquele o pedido mais natural do mundo. Livro???, refletiu um segundo depois o homem de terno.Teria o menino pedido um livro, em vez de um trocado, uma moeda, um real? Mesmo que houvesse o menino pronunciado um coerente ;tio, me paga um lanche que eu tô com fome;,ainda assim alguma coisa estaria fora de lugar.;



Fábula Urbana
José Resende Jr. Edições de Janeiro | 40 páginas . R$ 34,90
Tarde de autógrafos e bate papo com Tino Freitas. Livraria Cultura do Shopping Iguatemi. Hoje às 15h.

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