Dicas de português

Dicas de português

por Dad Squarisi dadsquarisi.df@dabr.com.br
postado em 08/06/2014 00:00

Recado
;O estilo é uma maneira muito simples de dizer coisas complicadas.;
Jean Cocteau




Leitor pergunta
Luças Machado cursa o terceiro ano do ensino médio. De olho no Enem, no vestibular e em concursos, faz o que tem de fazer. Estuda. Estuda muito. Ele sabe que não basta sair-se bem nas provas. Precisa sobressair ; ter desempenho melhor que o dos concorrentes. Pra chegar lá, não se satisfaz com os conteúdos apresentados nas salas de aula. Vai além. A consulta que faz serve de exemplo.

Ele escreve: ;Meu professor costuma dizer que o infinitivo é a chave do verbo. Mas para aí. Não explica o porquê da importância. Já consultei gramáticas e dicionários. Há explicações aqui e ali. Mas, dispersas, pouco ajudam. Você tem falado no assunto. Que tal juntar as partes para formar um todo? Se for atendido, vou emoldurar a resposta;.


Primeira mãozinha
Lucas, seu professor tem razão. O infinitivo não é pouca coisa. Além de nomear o verbo, dá um montão de informações. Uma delas: diz a conjugação a que o danado pertence. A terminação -ar (amar, cantar, dançar) marca a primeira. A -er (ver, vender, conter), a segunda. A -ir (partir, sentir, dormir), a terceira. Com ela, formam-se paradigmas. Cada turma segue o próprio modelo de flexão. Se fugir a ele, entra no time dos rebeldes ; os irregulares.

Partir, por exemplo, é paradigma da 3; conjugação. Os que se flexionam como ele são regulares. Dividir serve de exempo: parto (divido), parte (divide), partimos (dividimos), partiram (dividiram). Sentir foge à regra. Na 1; pessoa do singular do presente do indicativo, abre o jogo. O e do infinitivo vira i: sentir, sinto. É irregular.


Segunda mãozinha
O infinitivo, temente a Deus, respeita o 4; mandamento. ;Honrar pai e mãe;, ordena o Senhor. O dono das possibilidades do verbo diz amém. Na conjugação, põe a família acima de tudo. Eis quatro casos:

1. Se o infinitivo tem j no nome, sempre que o gê soar, o j pede passagem: viajar (viajo, viaja, viajamos, viajam; que eu viaje, ele viaje, viajemos, viajem).

2. Se o infinitivo tem g no nome, sempre que o gê soar, o g ganha banda de música e tapete vermelho. Pra manter a pronúncia, se necessário, o g vira j: agir (ajo, age, agimos, agem; se eu agisse, ele agisse, agíssemos, agissem), dirigir (dirijo, dirige, dirigimos, dirigem).

3. Se o infinitivo tem z no nome, sempre que o z soar, escreve-se a lanterninha do alfabeto: fazer (fiz, fez, fizemos, fizeram), dizer (ele diz, dizemos, dizem), trazer (traz, trazemos, trazem).

4. Se o infinitivo não tem z no nome, quando soar z, escreve-se s: querer (eu quis, quisemos, quiseram; quiser, quisermos, quiserem; quisesse, quiséssemos, quisessem), pôr (pus, pôs, pusemos, puseram, puser, pusermos, puserem; pusesse, puséssemos, pusessem).


Terceira mãozinha
Há mais. Muito mais. O infinitivo vai além da família. Ele dá dicas sobre a formação de palavras:

1. verbos terminados em -dir formam substantivos escritos com s: dividir (divisão), confundir (confusão), aludir (alusão), iludir (ilusão).

2. verbos terminados em -uzir formam substantivos terminados em -ção: seduzir (sedução), conduzir (condução), traduzir (tradução).

3. verbos terminados em -ar ora se grafam com s, ora com z. Por quê? A desinência formadora de verbos é -ar: martelo (martelar), casa (casar), Dilma (dilmar).

Se o nome tem s no radical, o -ar se cola a ele: análise (analisar), catálise (catalisar), camisa (encamisar), casa (casar).

Se o -ar não se cola ao s, o -izar, com z, entra em cartaz: humano (humanizar), catequese (catequizar), civil (civilizar), canal (canalizar).

Viu? Não existe o sufixo -isar, com s. Só existe -izar, com z.


Moral da história
O infinitivo é uma das portas que se abrem para os segredos da língua. Há outras. Transpô-las amplia o domínio das possibilidades que se oferecem ao falante. Com elas, ganha-se o poder de escolha. Viva! É a liberdade.

Lição de José Lins do Rego

;A gramática, como os andaimes, tem grande utilidade enquanto se está construindo a casa ou adestrando o estilo. Depois, a sua grande serventia é a ausência.;

(Coluna republicada. A autora está de férias.)

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