Novas tendências

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CARLOS THADEU DE FREITAS GOMES Economista-chefe da CNC e ex-diretor do Banco Central
postado em 02/12/2014 00:00


Na última semana de novembro, foi divulgada a equipe que será responsável pela política econômica a partir de janeiro do próximo ano. Os integrantes são Joaquim Levy, Nelson Barbosa e Alexandre Tombini ; os dois últimos alocados no Ministério do Planejamento e no Banco Central. O principal objetivo da nova equipe será recompor os fundamentos macroeconômicos do país, que enfrenta baixo crescimento, inflação elevada, problemas com as contas públicas e credibilidade fraca, tanto interna quanto externamente. Eles explicitaram que objetivam também o ajuste gradual das contas públicas e o fim das transferências de recursos do Tesouro para bancos públicos e o reequilíbrio do cenário para manter as políticas sociais atuais. Nesse sentido, foram divulgadas as metas para o superavit primário: 1,2% do PIB para o próximo ano e 2% para os anos de 2016 e 2017.

Nesse mesmo contexto, Tombini concedeu entrevista e deu a entender que o estoque de swaps cambiais ;atende à demanda até o presente momento;, sugerindo que pode haver uma redução ou até mesmo o fim dos leilões diários de swaps no ano que vem. Ao diminuir tais intervenções, o dólar poderá oscilar de forma mais livre, configurando-se também numa ferramenta auxiliar para o ajuste da economia. Ainda assim, a autoridade monetária deve seguir com a rolagem dos contratos atuais.

Entre as moedas dos emergentes, o real é a segunda que mais acumula perdas no mês de novembro, atrás apenas do rublo russo. É importante destacar a diferença de cenário entre os dois países, já que a Rússia vive uma crise no regime cambial. Internamente, o último relatório de inflação do Banco Central deu destaque à situação de piora no cenário inflacionário no curto prazo e sinalizou que a conversão para a meta central só deve ocorrer em 2016, o que sugere que poderá haver novas altas na taxa básica de juros. O documento sugere, também, que as pressões inflacionárias advêm principalmente dos ajustes dos preços relativos e dos administrados.

Outra fonte de preocupações para os emergentes é a aproximação da mudança na política monetária norte-americana. Os indicadores de emprego e produtividade dos EUA têm se mostrado mais animadores ao longo do ano. A ata mais recente da reunião do Comitê de Política Monetária do Federal Reserve (Fomc) reforçou que a elevação dos juros dependerá da evolução desses dados, o que significa que haverá maior volatilidade a cada divulgação de indicador norte-americano. As mudanças na política monetária dos EUA poderão atrair capitais dos emergentes para o país, já que, historicamente, é considerado mais seguro para investir, ainda que os outros ofereçam maior prêmio de risco. Apesar das operações de swaps cambiais, a volatilidade do real já está bastante elevada ; em torno de 18% ;, atrás apenas do peso colombiano, com 24,3%, e do rublo russo, com 23,9%.

Apesar dessas incertezas, nesse ambiente de liquidez global abundante no qual os bancos centrais ; principalmente o europeu e o japonês ; continuam aumentando a base monetária, não deverão faltar recursos para financiamento do deficit na conta corrente brasileira durante esse período. Os bancos centrais americano e europeu enfatizaram, em suas últimas reuniões, que um período prolongado de preços baixos alimenta as expectativas deflacionárias. Isso porque, quando caem as expectativas inflacionárias, a taxa real de juros, que é a mais importante para as decisões de investimentos, aumenta. Dado que as taxas de juros nominais já estão em seus níveis mais baixos, elas não podem ser usadas no curto prazo. Logo, qualquer desancoragem das expectativas inflacionárias causa um aperto monetário ; o oposto do que os bancos centrais desejam no momento.

É preciso demonstrar algum direcionamento para a reconstrução da credibilidade enfraquecida do país. Isso é necessário, pois, assim, poderá haver maior previsibilidade em relação às trajetórias do câmbio e dos juros, evitando-se que o Brasil pague prêmios de riscos desnecessários para rolar a dívida. A ancoragem da credibilidade depende de um programa fiscal crível que gere superavits primários necessários para preservar a sustentabilidade da trajetória benigna da dívida pública. É óbvio que a retomada do crescimento econômico é a variável de ajuste que permitirá o menor sacrifício possível das políticas contracionistas fiscal e monetária. A nova equipe econômica parece comprometida em direcionar as políticas públicas para esses objetivos.


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