As memórias do velho baiano

As memórias do velho baiano

» GABRIEL DE SÁ
postado em 04/12/2014 00:00
 (foto: Pipa Distribuidora/Divulgação)
(foto: Pipa Distribuidora/Divulgação)


Certa vez, o poeta baiano Luiz Galvão ouviu que, se tivesse composto Preta pretinha nos Estados Unidos, não precisaria trabalhar nunca mais. A parceria com Moraes Moreira continua a render bons frutos em direitos autorais ainda hoje, de todo o mundo, mas o artista está longe de poder se aposentar. Aos 77 anos, o criador dos versos de Acabou chorare, A menina dança e Mistério do planeta, clássicos dos Novos Baianos com melodia de Moraes, vive em Salvador, faz shows esporádicos, ministra palestras, prepara documentário sobre a carreira e acaba de relançar um livro sobre a saga da trupe que ele fundou e que arrebatou o Brasil nos anos 1970.

Novos Baianos ; A história do grupo que mudou a MPB detalha, sob o olhar poético do artista, algumas das principais passagens vividas por Galvão, Moraes Moreira, Baby do Brasil (antes, Baby Consuelo), Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor e companhia entre 1969 e 1979, a década em que eles misturaram o rock ao samba e ao choro e criaram algumas das músicas mais originais de nosso cancioneiro. Não à toa, o disco Acabou chorare, de 1972, foi considerado pela revista Rolling Stone, em 2007, o mais importante da música brasileira, de todos os tempos.



A história por trás do álbum é conhecida: foi João Gilberto quem inspirou o grupo a adentrar o universo do samba depois de tocar para eles, ao violão, Brasil pandeiro. A canção seria a faixa de abertura de Acabou chorare. Galvão revisita a passagem no livro. ;Naquela época, o que tocava aqui não era a verdadeira música brasileira. João disse que a gente precisava voltar pro caminho de casa. E nós voltamos. Os Novos Baianos levaram novamente a música brasileira para as rádios e para a juventude;, acredita Galvão, em entrevista por telefone ao Correio.

Lançado em 2007, o livro se esgotou rapidamente, e agora aparece ampliado e repleto de novas passagens. Galvão não se furta a abordar assuntos polêmicos, como as drogas, item marcante na trajetória do grupo. E, claro, o futebol, a segunda maior paixão dos integrantes. A primeira é a música. O autor diz que tirou algumas coisas, botou outras, e apresenta os integrantes da trupe nos dias de hoje. ;Todos os capítulos são importantes, não tem nada à toa. Não escrevo por escrever;, comenta.

Futebol clube

Além dos clássicos de Acabou chorare, Galvão diz que suas músicas preferidas do grupo são Vagabundo não é fácil e Com qualquer 2 mil réis, faixas escritas por ele para o álbum Novos Baianos Futebol Clube (1973). ;Eu escrevo o que vivo;, conta. À época, a trupe morava em comunidade em um sítio no Rio de Janeiro, e a convivência era intensa. ;Divergência sempre teve, mas brigas, não. A gente era um grupo que defendia coisas boas. Nossa proposta era única, adiantada. Ninguém acompanhava o pique da gente.;

Moraes foi o primeiro a deixar a trupe, em 1975. Ao lado de Galvão, o compositor é responsável pelas principais canções dos Novos Baianos, a amizade foi a base para a formação do grupo. ;Foi Tom Zé quem me mandou procurá-lo. Em 15 dias, a gente já tinha uma dúzia de músicas;, relembra o letrista. ;O sistema começou a oferecer dinheiro pra Baby, pra Pepeu, e cada um foi trabalhar individualmente. Em 1979, me deram um dinheiro pra eu tentar levar o grupo para os EUA, mas eu me chateei com alguma coisa e acabei devolvendo a grana;.

Galvão vive com a esposa, Janete, e continua a compor. O poeta está captando recursos para um documentário sobre sua vida, e diz que vai ser melhor que Os filhos de João ; O admirável novo mundo baiano (2009), de Henrique Dantas, que levou o Candango de Melhor Filme no Festival de Brasília. Além disso, o artista planeja um longa de ficção dirigido por ele. ;Faço muitas coisas em muitas áreas;, diz.



NOVOS BAIANOS ; A HISTÓRIA DO GRUPO QUE MUDOU A MPB

De Luiz Galvão. Lazuli Editora, 336 páginas. Preço: R$ 46,90.

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