"A lei é para todos"

"A lei é para todos"

Nova fase da investigação leva para a cadeia Marcelo Odebrecht e Otávio Azevedo, presidentes das maiores empreiteiras do país, e fecha cerco ao esquema. Eles são suspeitos de corrupção, cartel e fraude em licitação. Empresas negam acusações

EDUARDO MILITÃO JAQUELINE SARAIVA
postado em 20/06/2015 00:00
 (foto: Moacyr Lopes Júnior/Folhapress
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(foto: Moacyr Lopes Júnior/Folhapress )


A Polícia Federal prendeu ontem os presidentes das maiores empreiteiras do país sob a acusação de participarem de esquemas de desvio de dinheiro da Petrobras. Marcelo Bahia Odebrecht, da Construtora Norberto Odebrecht (CNO), e Otávio Azevedo, da Andrade Gutierrez (AG), foram para cadeia com outras 10 pessoas na 14; fase da Operação Lava-Jato, apelidada de Erga Omnes, que significa ;uma medida vale para tudo;. Todos os investigados são suspeitos de corrupção, fraude em licitação e formação de cartel, desvio de verbas públicas e lavagem de dinheiro. Duzentos e vinte policiais cumpriram 59 mandados de prisão, de condução coercitiva e de busca e apreensão em quatro estados.

;A ideia é trazer um recado claro de que a lei vale efetivamente para todos;, afirmou o delegado regional de Combate ao Crime Organizado da PF no Paraná, Igor Romário de Paula. ;Não importa o tamanho da sua empresa, seu destaque na sociedade, sua capacidade de influência, seu poder econômico. Isso jamais vai poder ser prerrogativa para permitir a essas pessoas e empresas a praticar crimes de forma impune.;

O procurador regional da República Carlos Fernando dos Santos Lima criticou as ;tentativas de blindagem; das grandes empreiteiras, que, segundo ele, negam as acusações, mas não fazem investigações internas por estarem ;intensamente envolvidas; no esquema de desvios de dinheiro na Petrobras. ;O próprio governo diz: ;Devemos punir os executivos e salvar as empresas;;, lembrou. ;O Ministério Público, a PF e a Receita Federal dizem: ;Devemos punir todos os responsáveis de acordo com sua responsabilidade, seja civil, improbidade e penal;. Devemos punir todos, isso aqui é uma República. A lei deve valer para todos ou não devia valer para ninguém.;

O juiz da 13; Vara Federal de Curitiba, Sérgio Fernando Moro, determinou o bloqueio de R$ 20 milhões nas contas bancárias de 10 dos investigados. A PF prendeu oito pessoas e mais quatro temporariamente, por cinco dias. Todos serão levados a Curitiba. Entre eles, os executivos da Odebrecht Márcio Faria e Rogério Araújo e o diretor Alexandrino Alencar, que viajou com ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o exterior em viagem paga pela empreiteira. Rogério Nora de Sá, que foi presidente da AG até 2011, foi chamado a depor coercitivamente.

Sérgio Moro negou a quebra de sigilo bancário das operações da CNO e da AG por meio de empréstimos no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Para o juiz, esse pedido é pertinente, mas precisa ser feito à parte.

Corrupção no exterior

Segundo os investigadores, surgiram provas documentais de corrupção das duas empresas (leia fac-símile abaixo), por meio de pagamentos no exterior. Para eles, os altos executivos sabiam do esquema, que utilizava como operador da CNO Bernardo Freiburghaus, foragido e que hoje vive na Suíça. Na AG, os operadores seriam Fernando ;Baiano; Soares e Mário Goes. Entre as provas usadas para prender Marcelo Odebrecht, está uma e-mail recebido por ele em 21 de março de 2011, que indica sobrepreço de 20 mil a 25 mil em sondas para o pré-sal, sem detalhar se o valor é em reais ou dólares.

A CNO e a AG negaram participação no esquema. A Odebrecht disse que as ações da PF são ;desnecessárias; porque sempre colaborou com as investigações. A assessoria da AG disse que acabaram ;causando estranheza as prisões;. A empreiteira ;está acompanhando o andamento da 14; fase da Operação Lava-Jato e prestando todo o apoio necessário aos seus executivos nesse momento;.

Brahma
Em mensagens trocadas com executivos da OAS, o ex-presidente da empreiteira Léo Pinheiro se refere ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como ;Brahma;. Pinheiro, que é amigo do petista, o apelidou em referência à marca de cerveja. Em uma das conversas interceptadas pela Polícia Federal, o ex-executivo diz que ;Brahma; faria uma palestra em Santiago, no Chile.

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