Atividade médica prioritária

Atividade médica prioritária

» EUDES DE FREITAS AQUINO Presidente da Unimed do Brasil
postado em 20/06/2015 00:00
É cada vez maior a necessidade de o setor de saúde suplementar gerenciar duas variáveis relevantes para garantir atendimento aos mais de 51 milhões de usuários que utilizam planos de saúde no Brasil: a gestão da assistência e o controle de custos. Inserção e uso acrítico de novas tecnologias, envelhecimento populacional, alta prevalência de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) e crescimento das ações judiciais movidas contra as operadoras influenciam na alta dos custos e têm reflexo direto no aumento da sinistralidade, o que impacta e compromete a sustentabilidade dos planos de saúde.

A compatibilidade entre a gestão da assistência à saúde e a gestão de custos é completamente viável. Atualmente, os planos privados realizam 250 milhões de consultas por ano, 7 milhões de internações e 600 milhões de exames complementares. Infelizmente, esses números ainda representam uma medicina reativa, conhecida no setor como hospitalocêntrica, por ser baseada na remediação de doenças instaladas nos pacientes e por não refletir bons indicadores, uma vez que traduzem apenas a existência das doenças.

A partir dessa percepção, iniciou-se a busca pela atenção integral à saúde, reconhecida como responsável por promover qualidade e eficiência nos custos em países como Reino Unido, Canadá, Alemanha, França, Holanda, Portugal, Espanha e Nova Zelândia. A atenção integral é baseada na atenção primária e prioriza amplo e detalhado acompanhamento durante todo o ciclo de vida. A abordagem integra desde ações de promoção à saúde e de prevenção de riscos e doenças, até a reabilitação e recuperação do paciente.

Com serviço de atenção primária estruturado, oferecido por profissionais com boa formação, a resolução dos problemas tende a ser alta já no primeiro contato com o paciente, alcançando em média 80%. E, em sistemas de referência, como a APS da Holanda, ultrapassa 90%. Isso reduz a necessidade de muitos recursos adicionais evitando, principalmente, que o paciente tenha que peregrinar por diferentes áreas especializadas em percurso não orientado pelo médico.

Mas, então, se tudo parece mais lógico, por que é tão difícil trabalhar na mudança do modelo de atenção à saúde? Não há uma razão única. A cultura da população de procurar diretamente médicos especialistas para o primeiro atendimento é um dos desafios. Existe a ideia muito difundida entre os brasileiros de que o cuidado especializado é o melhor caminho para a realização de diagnósticos rápidos e imediatos.

Outro ponto a ser considerado é a percepção do público de que o médico generalista não é resolutivo. No Brasil, ainda é muito baixo o número de médicos com especialização em medicina de família e comunidade. Segundo informações da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), há no Brasil cerca de 5 mil médicos especialistas na área. Sendo que menos de 10% das vagas de residência estão direcionadas para essa especialidade ; número que chega a 40% em países como Inglaterra, Holanda e Canadá. E, das vagas brasileiras para residência, apenas 30% estão devidamente ocupadas ; prova de baixa atração.

Por essa razão, é fundamental incentivar a ocupação das vagas de residência para ampliar a formação de médicos para atuação na atenção primária, bem como, simultaneamente, desenvolver mecanismos para promover adequada capacitação de médicos clínicos de outras áreas que desejam atuar na APS. Felizmente, movimentos estão sendo desenvolvidos nesse sentido, como a aprovação da resolução que garante bônus de 10% em futuras provas de residência para os médicos que concluírem os dois anos de residência em medicina de família e comunidade.

A mudança de modelo de atenção constitui desafio que precisamos enfrentar de peito aberto, na saúde pública ou na suplementar. É necessário o engajamento de todos os segmentos: agência reguladora, entidades de classe, empresas e sociedade. Precisamos investir em formação a fim de oferecer alternativas viáveis aos profissionais que desejam se aprimorar e contribuir com o movimento de migração para atenção primária à saúde. Só o esforço conjunto poderá contribuir com a melhor condição para o êxito nessa caminhada.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação