As letras de uma cidade de ficção

As letras de uma cidade de ficção

Jornalista que cobriu o lançamento da pedra fundamental de Brasília, Adirson tem dezenas de livros sobre a capital

Cristine Gentil Especial para o Correio
postado em 15/07/2018 00:00
 (foto: Adirson Vasconcelos/Arquivo pessoal)
(foto: Adirson Vasconcelos/Arquivo pessoal)








Ele não tem uma casa. Fez dela uma redação de jornal, um escritório, um arquivo, um museu vivo e orgânico, alimentado por sua memória e seus estudos. José Adirson de Vasconcelos, 82 anos, mora na história ; mais precisamente na história de Brasília. Como testemunha e autor, o amigo de Juscelino Kubitschek não se cansa de escarafunchar e alimentar um acervo monumental, com milhares de fotos e documentos, guardados no apartamento da 214 Norte e na chácara de Planaltina, que ele está transformando em museu.

Pai de sete filhos e avô de nove, o homem de Santana do Acaraú, no Ceará, já morava em Recife quando foi escalado pelo Correio do Povo, onde trabalhava, para fazer a cobertura da pedra fundamental de Brasília em 5 de maio de 1957. Com memória prodigiosa, lembra como se fosse hoje. Foram 13 horas de viagem entre Goiânia e o lugar onde se ergueria a nova capital ; ou, como diziam os colegas de redação, ;depois do fim do mundo;. ;Fiquei muito admirado com aquele descampado; Naquele momento, me apaixonei pelo nada. Era tudo utopia...;, diz.

Três meses depois, veio em definitivo para ser o correspondente da construção. Passou a registrar e documentar tudo, inclusive os passos do presidente Juscelino Kubitschek, de quem, conta, se tornaria amigo.

;Ele visitava os canteiros de madrugada, falava para mil, 2 mil, 5 mil trabalhadores, gente humilde, rude, muitos analfabetos; Abraçava os candangos, dizia que contava com eles para inaugurar a capital em 1960. No dia seguinte, a palavra dele se multiplicava. Tenho certeza de que foi por isso que Brasília ficou pronta.;

Em 1959, Adirson já tinha o primeiro livro pronto, O homem e a cidade. De lá para cá, foram mais de 40, além de ensaios, estudos, palestras e uma infinidade de escritos, a maioria sobre Brasília. Há também uma bibliografia sobre personagens da época da construção. Entre eles, Assis Chateaubriand e Edilson Cid Varela, fundadores do Correio Braziliense, onde Adirson viria a trabalhar por mais de 40 anos, passando por funções diversas, inclusive a diretoria de redação.

Entre os diversos episódios marcantes, há dois especialmente relembrados. Um deles foi quando visitou Juscelino no exílio em Paris. ;Ele era muito vigiado. Eu ia para a Alemanha. De lá, peguei um trem para Paris. Estava morando num apartamento pequeno e modesto. Levei nos bolsos dinheiro que um primo dele arrecadou e eu coloquei mais um pouco. Abri o armário e coloquei num casaco. Ele me abraçou e agradeceu muito.;

Depois, na morte de Juscelino: ;O povo literalmente tomou o caixão dos bombeiros e saiu carregando da Catedral até o cemitério. Passei o dia todo sem comer. Foi impressionante;.

Adirson ainda guarda as palavras de JK sobre Brasília. Religioso, apegado aos símbolos do Brasil e às imagens de santos , o ex-seminarista confia nas profecias sobre a nova capital. ;JK dizia: ;Brasília é a capital do Terceiro Milênio;. Acredito que aqui estamos construindo uma nova civilização.; Atualmente, Adirson prossegue nos estudos, agora se debruçando sobre o pensamento de JK e de Assis Chateaubriand. Para ele, Brasília foi um sonho possível graças ao querer de um homem.

Por muito tempo, Adirson quis ver a noite chegar sem ter de trabalhar. Hoje, aposentado, continua trabalhando o dia inteiro nos escritos, pesquisas e na organização do acervo. Garante que a vida lhe deu tudo o que precisa: ;Vivo feliz. Faço o que gosto. Tenho amigos, nunca faço inimigos ; quando tentam me ofender, eu resolvo o problema deles: eu os perdoo;.






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