A história não oficial da imprensa

A história não oficial da imprensa

Aziz Ahmed lança livro de entrevistas que narram, com senso de humor, fatos saborosos e decisivos da história brasileira. Ricardo Boechat, Carlos Lacerda, Charles De Gaulle e Roberto Marinho são alguns personagens

Severino Francisco
postado em 09/03/2019 00:00
 (foto: kleber sales/CB/D.A Press - 14/3/13)
(foto: kleber sales/CB/D.A Press - 14/3/13)



Existe um dogma inabalável nas redações de jornais, segundo o qual o jornalista não é notícia. Aziz Ahmed tem 80 anos e passou 55 nas redações de jornais. Sempre conversou com os colegas e ouviu histórias muito interessantes. Algumas delas desmistificam verdades aparentemente incontestáveis. É o caso da versão de que o ex-presidente da França Charles De Gaulle teria afirmado que o Brasil não é um país sério.

A frase é repetida 24 horas por dia nas páginas dos jornais ou nos programas de tevê. Mas Aziz foi apurar com Luiz Edgar de Andrade para quem De Gaulle teria concedido entrevista, e o repórter repeliu categoricamente a versão. Para Aziz, é um caso clássico de cascata ou, se preferirem, fake news: ;É a maior fake news da história da imprensa brasileira;.

Aziz resolveu reunir 26 jornalistas veteranos e ouvi-los para compor uma história dos bastidores, uma história não oficial da imprensa escrita. A iniciativa resultou no livro Memórias da imprensa escrita, a ser lançado, na segunda-feira, na Associação Brasileira de Imprensa (ABI). É um mar de histórias reveladas: a maioria divertida, outras trágicas e todas reveladoras do jornalismo e da história brasileira.

Dos 26 entrevistados, somente três tinham menos de 70 anos: Aluizio Maranhão, Bruno Thys e Ricardo Boechat. Aliás, Boechat concedeu a última entrevista a Aziz e falou durante três horas. O livro traz a inovação de oferecer um QR Code, que permite ouvir e ver os diálogos dos personagens na íntegra. Marcelo Monteiro, cartunista de O Globo desde 1962, faz as caricaturas.

Aziz é carioca de Vila Isabel, iniciou a carreira jornalística no Correio da Manhã em 1961, exerceu o cargo de chefe de reportagem em O Globo e na Última Hora. Dirigiu a sucursal da Última Hora em Brasília e foi editor. Dirigiu o Jornal do Comércio de 1979 até 2013. E, nesta entrevista, ele conta histórias e fala sobre os anos dourados, os anos de chumbo, a redemocratização e os dilemas atuais da mídia.



Como nasceu a ideia de fazer o livro?
Sempre conversei com colegas da minha geração. Comecei no Correio da Manhã em 1961 e conheci muitos fatos interessantes nesses diálogos. Miranda Jordão, ligado à Última Hora, era amigo de Samuel Wainer. O jornal fechava tarde e Wainer ficava em uma mesa de restaurante cheia de homens de negócio até duas horas da manhã. Miranda ligava e ele perguntava: o que era a manchete do jornal? Miranda respondia: é a história de um marido traído, que mata a mulher e coloca no freezer. Do outro lado da linha, Wainer respondia: ;olha, acho melhor você colocar assim: marido mata mulher e coloca no freezer. Daqui a pouco, os jornaleiros gritavam a manchete para vender o jornal e todos os participantes da mesa pensavam que Wainer havia reelaborado a manchete.


Quem trabalha em jornal tem muitas histórias para contar?
Vamos a uma história de jornalismo policial. Jarbas domingos trabalhava na Última hora com Amado Ribeiro e fizeram uma matéria com um cara que tinha o apelido Coisa ruim. Era de uma família de marginais. O pai tinha uma escola de punguistas, de batedores de carteira. O aluno tinha de tocar nos bonecos sem mexer nos guizos. O Arnaldo Niskier conta história do que era o Adolfo Bloch. Ao mesmo tempo generoso e cheio de rompantes. Vinha descendo até as rotativas e tinha um funcionário dormindo. Bloch deu uma esculhambação: eu trabalhando e você aí descansando. O cara ficou puto e deu um soco no nariz dele. Teve de ir até o hospital para se tratar. Aí, perguntaram para ele se ia demitir o funcionário. Ele disse: não, fui muito grosseiro com ele.


E a história de que a frase do De Gaulle sobre o Brasil é fake news. Procede?
Essa história é interessante. O Gabeira até escreveu uma coluna que nunca havia conversado com Luís Edgar de Andrade, o repórter a quem é atribuído ter registrado a frase do De Gaulle. Entrevistei o Luís Edgar. Ele era corresponde em Paris, entre 1960 e 1965. Ele negou taxativamente que De Gaulle tenha proferido a frase. Disse que o presidente francês nunca falou isso. Houve, sim, uma conversa com um embaixador. Edgar não sabe de onde tiraram essa história. É a maior fake news da história da imprensa brasileira.


Como é a história do sonho de Carlos Lacerda ser autor de radionovelas?
Antes de ser o político que foi, Carlos Lacerda queria ser autor de novelas. Ficou empolgado com a radionovela Direito de Nascer. Entrou para a Tribuna da Imprensa, comprou o jornal e desistiu. Se fosse novelista, Getúlio Vargas não teria se suicidado, Jânio Quadros não havia renunciado e Jango não seria derrubado. Como se vê, esse episódio influiu muito nos destinos do país.


Fatos aparentemente triviais afetam a vida do jornalismo e do país?
Henrique Caban conta uma história interessante sobre o destino das organizações Globo e do Jornal do Brasil. Na visão de Caban, o pragmatismo do doutor Roberto Marinho venceu a soberba do Nascimento Brito. Roberto era um cara que recebia todo mundo; Nascimento Brito não recebia ninguém. Quando estavam disputando os classificados, não recebia nem Sérgio Dourado, empreendedor imobiliário, o grande anunciante da época. Nascimento Brito tinha o espírito de nobreza, só se referia a Roberto Marinho como ;aquele mulato;. Quando viajou para outros países, o doutor Roberto percebeu que o futuro do jornalismo se dirigia mais para a redação do que para as oficinas. Nascimento não entendeu esse movimento crucial para o jornalismo contemporâneo. Investiu na sede e no parque gráfico. Comprou um prédio majestoso, adquiriu 32 máquinas de linotipo que nunca foram usadas. O Globo conquistou o mercado.


A quem se dirige o livro?
Acho que para estudante de jornalismo tem muitas coisas interessantes. Contribuo um pouco para um centro de memória da imprensa. Quem faz obituário tem de ter livro desses na mão. Ao longo das revelações, os jornalistas vão explicando o que é cascata, nariz de cera, barriga. Qual a importância da notícia verdadeira. É a experiência de uma época romântica e maravilhosa. Não havia internet, nada disso. Caban foi diretor de uma revistinha que só passava a programação da tevê. Vendia 500 mil exemplares. Tinha uma ou outra reportagem com algum artista. Uma semana depois do controle remoto, a empresa teve de fechar. Ninguém mais comprava. Acabou com uma revistinha. Se refletir sobre a internet, ela acabou com vários jornais.


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