Tentação descontrolada

Vício em sexo não é brincadeira, é sofrimento. Novo filme de Lars von Trier, Ninfomaníaca, tenta trazer cores reais para transtorno que atinge milhões de pessoas

Letícia Orlandi e Valéria Mendes / Saúde Plena/UAI
postado em 02/02/2014 00:00
 (foto: Christian Geisnaes/Divulgação)
(foto: Christian Geisnaes/Divulgação)

O vício em sexo nunca existe sozinho, diz psicóloga Sônia Eustáquia Fonseca. Filmes como Ninfomaníaca podem ajudar aqueles que sofrem a perceber que não estão sozinhos. ;É sempre importante lembrar que uma vida sexual saudável é voltada para o prazer e para a troca com o outro;, aponta Sônia.

A psicóloga é pós-graduada em Sexualidade
Humana, especialista em Terapia Breve para diagnóstico e tratamentos de conflitos e disfunções sexuais, observa logo de cara que a dependência sexual caracteriza-se por uma compulsão pelo ato; e não pela satisfação. O sofrimento é inerente.


Sônia pondera também que, ainda hoje, o sexo é visto na nossa sociedade como um ato não voltado ao prazer. ;Impregnada de símbolos religiosos, nossa cultura considera profano o sexo que não se destina à procriação. Isso só dificulta o reconhecimento e o tratamento do problema, que não é tão incomum. Tem me assustado a quantidade de casos que recebo que envolvem a compulsão sexual, manifestando-se na dependência de sites pornográficos, por exemplo;, afirma a psicóloga.


A especialista explica que, em muitos casos, há uma propensão ao desenvolvimento de uma compulsão sexual, e a facilidade de acesso faz com que ela se manifeste. ;As pessoas que receberam uma educação em relação ao certo e errado, têm noção de censura, caráter e limites acabam ficando muito mal consigo mesmas e desenvolvem um tipo de neurose obsessiva. A ideia que motiva a compulsão ; por exemplo, ver vídeos de sexo com travestis ; é considerada uma ideia intrusiva. ;Eu não quero, mas não controlo;. Em alguns desses casos, o tratamento pode incluir medicamentos ansiolíticos e antidepressivos, mas não há uma substância específica para a cura. Isso não existe;, explica.

Uma característica importante da dependência sexual, assim como de outros vícios, é que o transtorno nunca existe sozinho. ;Daí a importância de uma consulta com profissional da área. As descrições isoladas de cada problema existem muito mais para fins didáticos, porque na prática elas nunca estão isoladas. Os sintomas dos pacientes sempre reúnem dois ou três códigos do CID;, define a terapeuta. Mas será que existe um gatilho para o problema, alguma desilusão amorosa, talvez? Segundo Sônia, o gatilho está mais ligado a um quadro de depressão, neurose obsessiva ou ansiedade em excesso, por exemplo.

Como diferenciar um grande interesse pelo sexo ; que muitos usam para se vangloriar e alegar que têm o vício ; da dependência? A palavra-chave é o sofrimento, segundo Sônia. ;Uma fantasia ou interesse pelo tema não causa sofrimento, a pessoa consegue conviver com ela. Quando a necessidade de concretizar uma fantasia provoca dor, seja porque envolve trair o parceiro ou porque implica algum risco, por exemplo, é sinal de uma parafilia;, alerta a psicóloga.

Sônia explica que a confusão vai além do grau de apetite sexual. ;Assim como no caso dos alcoólatras, há uma resistência em enxergar o problema;, afirma a especialista. Até mesmo porque muita gente acha ;bonito; ser viciado em sexo, em função das declarações de celebridades ; como os atores Michael Douglas e David Duchovny e o golfista Tiger Woods ; e também da cobrança por demonstrações de virilidade, no caso dos homens.

Outro aspecto que deve ser considerado na hora de avaliar o caso é o tipo de sentimento. ;Só vai chegar ao consultório uma pessoa que tem uma estrutura de personalidade neurótica ; todos nós temos nossa dose de neurose, diga-se de passagem ; ativa, porque ela preza vínculos afetivos e sociais, limites que provocam a culpa. Pessoas que não sentem essa culpa e não prezam esses vínculos são aquelas de personalidade perversa e geralmente muito sedutora. Provavelmente não vão procurar ajuda, porque não veem nenhum prejuízo nas atitudes, para si ou para o outro;, pondera Sônia Fonseca.

Ela acrescenta que não há um medicamento específico para essa compulsão, mas que é importante avaliar, junto com o médico, o uso de remédios para amenizar os sintomas e dar mais condições ao paciente para enfrentar o processo da terapia.

Sônia Fonseca diz que as consequências mais extremas do impulso sexual excessivo chegam a afetar a cidadania do paciente. Há uma perda do interesse pela escola ou pelo trabalho e a pessoa se torna improdutiva, incapaz de uma contribuição social. As relações pessoais e a vida a dois também vão sendo progressivamente destruídas. ;Não é incomum que o dependente enfrente sérios riscos de suicídio e também se coloque em situações que podem afetar sua saúde física. Há também o risco de uma superexposição na internet, o que ajuda a detonar a relação a dois, caso ela exista;, informa a especialista.

Sobre os grupos de ajuda, Sônia aponta, assim como o próprio Luiz, do Dasa, que eles podem ser uma maneira de aliviar os sintomas, desabafar, tirar aquele peso inicial. ;Mas, nesse tipo de reunião, a origem do problema não é tratada profundamente. Os grupos ajudam a evitar recaídas, mas a psicoterapia é essencial para re-significar a causa do distúrbio;, analisa, ponderando que não se fala em ;cura;.

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