Dinastia Almeida

Dinastia Almeida

No Ceilândia desde 1997, os irmãos Adelson, Almir e Aridelson transformaram um clube prestes a ser extinto no único a conseguir quebrar a hegemonia do Brasiliense. Técnico alcança, hoje, marca de 150 partidas no comando do Gato Preto

Lorrane Melo
postado em 20/03/2014 00:00
 (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Difícil encontrar um técnico que se divirta tanto participando do bobinho e correndo para buscar uma bola perdida quanto Adelson de Almeida. E olha que faz tempo que ele não disputa uma boa pelada ; talvez por isso tenha saído de campo mancando após o treino antes da partida de hoje, contra o Capital, pela última rodada do Candangão. Mas nem a contratura na perna direita, na qual ele carrega tatuada uma imagem de São Jorge, seria capaz de tirar o treinador do duelo que pode colocar o Ceilândia entre os quatro primeiros colocados, um prêmio depois de um início difícil. E um momento ainda mais especial na vida do funcionário público que abdicou da carreira estável para investir no amor pelo futebol. Ele, que ;quase chutou o balde; depois das quatro derrotas consecutivas nos primeiros jogos e chegou a fazer as contas para não cair, completa hoje 150 jogos (todos anotados em um caderninho) à frente do Gato Preto.

O mascote, ele aprendeu a ignorar. A cor da sorte de Adelson é rosa. Ficou provado quando ele decidiu vestir uma camisa alaranjada na decisão da Taça Mané Garrincha de 2012 e o time começou perdendo. Nervoso, voltou do vestiário de rosa, o suficiente para conseguir o título, a vaga na final do Candangão e, em seguida, o segundo título estadual ; os únicos dos últimos 10 anos que não foram parar na galeria do Brasiliense.


Não fosse a trupe do A, talvez o Ceilândia já tivesse chegado ao fim. Ao lado dos irmãos Almir (diretor de futebol) e Aridelson (hoje presidente de honra), Adelson impediu que o time deixasse de existir em 1996, quando foi rebaixado para a segunda divisão. Motivo? Ter se recusado a jogar, por falta de dinheiro.


Desde então, Adelson só não treinou o Gato Preto de 2004 a 2009, quando se dedicou à base do maior rival: é tetracampeão candango de juniores pelo Brasiliense. Os quatro dias que ficou como técnico do profissional, ele desconsidera. ;Não foi uma passagem, eu só estive lá;, conta, sem medo de ser conhecido como técnico de um time só. Afinal, ao menos na família Almeida, ele é o melhor do mundo. ;Nunca vi alguém estudar e entender tanto de futebol quanto o Adelson;, derrete-se Almir, o mais velho dos sete irmãos que saíram ainda pequenos da Paraíba com o pai, José Sebastião, um dos candangos que ergueram Brasília.

Raspa do tacho
Os dois são tão próximos ; e parecidos ; que Almir já deu entrevistas no lugar de Adelson, com preguiça de voltar ao campo depois de um jogo. Aridelson, é mais contido. ;E bonito;, brincam. ;Ele é o mais novo, foi a raspa do tacho;, brinca o técnico, sabendo da importância do caçula na consolidação da equipe. Quando voltou ao time, em 2009, Adelson se reuniu com os irmãos e estipularam uma meta: conquistar o Candangão até 2015 e, depois, seguir outro rumo, longe do futebol. Como o título saiu no ano seguinte, Adelson agora pensa em encerrar o ciclo e se dedicar a viagens para conhecer o Brasil. Só mesmo uma nova meta, ;chegar ao jogo 200, por exemplo;, mudaria a mentalidade.


O troféu antecipado também os obrigou a acelerar a reestruturação da equipe, que hoje conta com um centro de treinamento próprio e viu o Abadião passar por uma reforma no último ano e que deve continuar no segundo semestre. Obras de Ari, também de Almeida, administrador de Ceilândia e responsável pelo dinheiro do clube. ;Três malucos;, como se definem, mas espertos: se os gastos estivessem nas mãos de Adelson, seria tragédia.


De próprio, mesmo, ele só tem o carro. Mora de aluguel. E, na lista das superstições, não basta apenas não tomar café da manhã no dia do jogo, usar duas toalhas brancas para tomar banho, orar o Salmo 27 e não deixar o ônibus dar marcha a ré com os jogadores dentro: é preciso usar uma camisa nova (e rosa) a cada jogo. ;Vou ao shopping toda semana comprar outra;, entrega, sem motivos para mudar o ritual. Afinal, ganhou título em 2010 e 2012. E 2014 também é ano par.

Memória

E a primeira vitória?
Adelson diz não lembrar muito bem da sua estreia como técnico profissional, mas recorda: saiu derrotado. Foram quatro tropeços consecutivos até tudo começar de verdade para ele, em 2001, quando conseguiu a primeira vitória, justamente contra o Brasiliense: 1 x 0, gol de Cássius. Sim, o mesmo atacante que entra em campo hoje, contra o Capital.

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