Ódio inflamável

Ódio inflamável

rodrigo craveiro rodrigocraveiro.df@dabr.com.br
postado em 02/07/2014 00:00


Três jovens israelenses são sequestrados e executados na Cisjordânia, prenúncio de perigoso ciclo de retaliações e combustível para o rancor. Militantes do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) decretam um califado islâmico no país e prometem estendê-lo a outras nações da região. A Síria segue mergulhada numa guerra civil que tem custado milhares de vidas e aprofundado o ódio entre opositores e governo. No Líbano, o apoio do movimento xiita Hezbollah ao alauita Bashar Al-Assad, ditador sírio, provocou mais instabilidade em um país marcado por assassinatos políticos.

Ainda que a decretação dos jihadistas não passe de retórica, ela indica a ânsia extremista pela imposição da sharia (lei islâmica) em uma região que se equilibra entre o autoritarismo e traços de uma democracia incipiente. Abandonado à própria sorte pelos Estados Unidos, o Iraque do premiê xiita Nuri Al-Maliki tornou-se covil do terror e entreposto de grupos inspirados pela rede Al-Qaeda. Um militante do EIIL confidenciou-me que preservar a própria honra tornou-se símbolo de crueldade e de barbárie ante o Ocidente. ;Querem que sorrimos enquanto violam nossa honra. Nossas riquezas devem ser roubadas enquanto nos curvamos a eles;, afirmou. Uma ideologia calcada no fanatismo e na acepção de que aqueles que não seguem o islã o detratam e são infiéis.

Os ventos que sopram sobre a Terra Santa também soam como prenúncio de tempestade. Na madrugada de ontem, Israel realizou mais de 30 bombardeios à Faixa de Gaza, em resposta à morte de três jovens judeus. A punição coletiva a 1,6 milhão de palestinos apenas acentua o ódio e o ressentimento entre os dois povos, tornando praticamente nula qualquer chance de retomada do processo de paz.

O Hamas alertou que uma campanha militar contra Gaza equivaleria a abrir os portões do inferno ; termo bastante usado por jihadistas. Em 2008, uma represália israelense pelo lançamento de mísseis contra o sul do Estado judeu terminou com a morte de 1,2 mil palestinos. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, prometeu uma reação curta ao assassinato dos jovens. Mas o simples bombardeio de Gaza pode servir de combustível para inflamar os jihadistas na Síria e no Iraque. Um cenário de consequências imprevisíveis.

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