Marcio Cotrim

Marcio Cotrim

postado em 12/07/2014 00:00
 (foto: Caio Gomez/CB/ D. A Press)
(foto: Caio Gomez/CB/ D. A Press)

Bocaoca


As pessoas falam, falam, continuam falando, às vezes falam ao léu, a esmo. Papo furado, eis o que isso é, que passa batido e não altera coisa alguma o horizonte ou um vivo arrebol .
Um dos assuntos mais inúteis vãos e baldios, por exemplo, é comentar o tempo, tema para quem, positivamente, nada tem a declarar a não ser vacuidades triviais. O tempo está maluco, não se decide. Está chovendo, mas pode parar. O sol está lindo mas de repente, quem sabe, pode cair um toró. Prefiro o frio. Eu, não. Adoro o calor.
Oh, indizível tédio escutar essa lenga-lenga que não leva a nada, não acrescenta uma ideia à humanidade. O gempo, é claro, nunca se decidirá, como o sol jamais brilhará eternamente ; nem as chuvas desabarão todos os dias até a consumação dos séculos.

Com a Bolsa de Valores, a asneira se repete. As ações estão doidas, é um sobe-e-desce que ninguém entende. Fica todo mundo pirado e não se resolve nada. Melhor comprar quando cair e vender quando subir. O negócio é esperar.
Assim flui o papo da sobremesa. Claro que, como o tempo, a Bolsa jamais subirá ou cairá ininterruptamente. Tem é muita gente esperta ganhando na alta e na baixa, enquanto os parvos seguem fazendo comentários beócios. Para quem sabe das coisas, só provocam largos bocejos quando o garçom traz a conta . . .
A capa da revista destaca a principal matéria da edição: ;Para Onde Vai o Brasil?;. O leitor, curioso, compra rápido o seu exemplar, lê sofregamente a reportagem e no final continua sem saber para onde vai o Brasil. Fica a lição: jamais procure resposta para esse tipo de pergunta, ouviu bem?

Coisa parecida sucede com artigos do tipo: ;Aborto, Crime ou Necessidade;, ;Democracia: Ilusão ou Solução;, ;Madonna, Mito ou Realidade;, e fica o pobre leitor fuçando a resposta que nunca será dada
Começa a entrevista na TV. O político, muito empertigado, passa a expor suas razões. ;Primeira ...; e prossegue num blá blá blá extenuante. Nunca chega à segunda razão de seu discurso, perde-se pelo caminho e estamos conversados . . .




Cena de loja. O cliente pergunta o preço de uma camisa. O balconista: ;É barato;, e deixa o comprador sem saber, afinal, quanto ela custa. Certa vez, fiquei tão irritado que nem insisti em saber o preço. Na hora de pagar, simplesmente preenchi o cheque escrevendo a palavra BARATO no espaço reservado à quantia, para assombro do vendedor ; que não conhecia aquela modalidade de pagamento, literalmente correta. . .
E que dizer de preço bom? A gente pergunta quanto custa aquele carro exposto no salão e o vendedor. muito animado, anuncia, cheio de convicção, o tal incrivel preço. De fato, é incrível, inacreditável.
Muita gente fala certa coisas sem lembrar de suas conotações apimentadas. Um caso típico ; e hilariante. Imagine você que, num Carnaval dos saudosos anos 40, foi grande sucesso uma marchinha de Carnaval intitulada ;Nós, os Carecas;, cujos primeiros versos diziam simplesmente o seguinte: ;Nós, nos os carecas / entre as mulheres somos maiorais / pois, na hora do aperto/ é das mulheres que elas gostam mais;.
Incrível, não é? Mas, ainda mais espantoso, é que a Censura, que naquele tempo ainda vigorava, tivesse comido mosca e deixado passar algo tão irreverente naqueles tempos menos devassos . . .
Senhoras de fina sociedade, donzelas inocentes, matronas suburbanas se esgoelavam pelos salões sem se darem conta ; talvez . . . ; do explícito louvor que faziam, em altos brados, às qualidades da genitália masculina

Outra impropriedade é falar nas merecidas férias de Fulano ou Beltrano. É sempre assim nas colunas sociais: quando alguém se manda para a Europa estará gozando de merecidas férias ; mesmo que o felizardo seja um sujeito que nunca trabalhou na vida . . .

Já estive em mais colos que um guardanapo
Mae West

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação