Nascer com naturalidade

Nascer com naturalidade

postado em 12/01/2015 00:00

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que as cesáreas não ultrapassem 15% dos partos realizados no país. No Brasil, na rede particular, o percentual chega a 84,6%, e a 40%, na pública. O ministério e a Agência Nacional de Saúde lançaram um conjunto de medidas para estancar o que qualificam de epidemia de cesarianas. A contar do último dia 7, os hospitais e os profissionais têm seis meses para se adequarem às novas regras, que buscam estimular o parto normal.

Entre as medidas, destaca-se a exigência de o obstetra preencher um partograma ; relatório sobre o desenvolvimento do nascimento do bebê ;, essencial para que hospital e profissional recebam o pagamento do plano de saúde. Assim, a opção pela cirurgia somente ocorrerá se, durante o trabalho de parto, for constatado risco para a paciente ou para a criança.

A decisão do ministério e da ANS divide os especialistas. Para os que são contrários, ela suprime a autonomia do médico e o direito da mulher de escolher a cesariana para dar à luz. Os profissionais favoráveis argumentam que o partograma inibe as intervenções cirúrgicas marcadas com antecedência, que implicam nascimento precoce, com os riscos aí implícitos.

Não se trata de eliminar prerrogativas ou impor regras à situação naturalmente suscetível a fatores imponderáveis. A medida, embora pareça ter viés econômico muito forte, contribui para a valorização do parto natural, que vem se perdendo. No tempo médio do parto normal (12 horas), é possível fazer pelo menos quatro cesarianas, com aumento de ganhos para hospitais e profissionais. Em contrapartida, os riscos para a mulher e para o bebê são potencializados.

Contra esses riscos, as políticas públicas de saúde têm que criar barreiras ; no caso, o Ministério da Saúde está cumprindo o seu papel. Mas só isso não é suficiente quando a rede pública não se coloca como opção adequada às gestantes. Diante dos perigos da cesariana, amplamente conhecidos por ginecologistas e obstetras, deve prevalecer a ética profissional, deixando a visão monetarista em patamar secundário.

Afinal, vidas têm supremacia absoluta. As administradoras dos planos de saúde, por sua vez, precisam valorizar e remunerar dignamente os médicos e os estabelecimentos associados. Na prática, a epidemia é maior do que a constatada pela OMS e reconhecida pelos órgãos de saúde do país. Devem prevalecer o bom senso e a responsabilidade dos que juraram atuar com abnegação em defesa da vida.

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