Brasileiros aceleram renegociação de dívidas

Brasileiros aceleram renegociação de dívidas

Com medo do desemprego e espremidas pela inflação, famílias procuraram aliviar o orçamento e obter condições mais favoráveis para pagar débitos antigos. Contratos reformulados nos bancos somam R$ 2,6 bilhões por mês

» RODOLFO COSTA
postado em 03/04/2015 00:00
 (foto: André Violatti/Esp. CB/D.A. Press)
(foto: André Violatti/Esp. CB/D.A. Press)



O medo do desemprego e a falta de confiança na economia têm levado milhares de brasileiros a renegociar dívidas em atraso ou caras demais. Somente nos dois primeiros meses deste ano, segundo o Banco Central, as renegociações de contratos com instituições financeiras somaram R$ 5,3 bilhões, valor 14,7% superior ao do mesmo período de 2014. Em média, são R$ 2,6 bilhões por mês.

Quase 60% das famílias têm dívidas com cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque especial, carnê de lojas, empréstimo pessoal, prestações de carro e seguro. O eletrotécnico João da Silva Vidal, 54 anos, trabalha em uma grande empresa do setor de telecomunicações, mas receia perder o emprego ao longo do ano. ;Tenho consciência de que muitas pessoas foram demitidas nos setores da indústria e de serviços. Não quero entrar na lista de dispensados;, disse.

Por enquanto, Vidal não sente necessidade de renegociar dívidas. Mas, para evitar problemas no futuro, ele pensa em saldar débitos com o cartão de crédito e antecipar o pagamento de prestações do carro, de R$ 1,1 mil. ;Quero ter mais poder sobre meu dinheiro. Hoje, sei das minhas responsabilidades, e tenho medo que chegue o dia em que não conseguirei honrar com meus compromissos;, explicou.

Renegociar a dívida é uma boa alternativa para quem deseja sair do vermelho, desde que tenha condições de pagar o novo débito. ;Não adianta falar com o gerente do banco sem saber a quantia devida e o quanto do orçamento pode comprometer;, ponderou a economista-chefe do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), Marcela Kawauti. Dependendo do tempo de atraso, é possível conseguir descontos de até 70%.

Saber negociar com o gerente pode definir o valor a ser pago no reajuste. ;Se a instituição financeira cobrar acima do que a pessoa pode pagar, é interessante apresentar uma contraproposta;, afirmou Marcela. ;Todo credor tem interesse em receber, mesmo que a quantia seja inferior ao crédito concedido anteriormente;, acrescentou.

Entretanto, para o consultor financeiro Reinaldo Domingos, presidente da DSOP Educação Financeira, mais importante do que substituir dívidas é ter reservas financeiras para preservar o orçamento familiar em uma eventual situação de desemprego. ;Se o trabalhador é demitido, durante quanto tempo ele conseguiria manter o padrão de vida? É preciso ter reservas para sustentar as prestações assumidas e o custo de vida mensal. Caso contrário, antecipar ou renegociar débitos não resolverá nada;, avaliou.

Apesar de a inflação corroer os orçamentos familiares, Domingos acredita que é possível economizar nas despesas do dia a dia. Segundo ele, há um excesso de 20% a 30% em tudo o que as famílias normalmente consomem, dos gastos mais básicos, como água e luz, às despesas com supermercado e lazer. ;É preciso apurar onde a folga é maior e reduzir esses dispêndios. Para isso, é importante reunir a família para discutir quais serão os projetos de vida, sempre pensando a longo prazo;, afirmou.

Desafio
Quem não renegociar a dívida ou não se munir de mecanismos para proteger o orçamento familiar corre o riscode ficar inadimplente. Frente à atual conjuntura, a perspectiva é de que os consumidores encontrem mais dificuldades para limpar o nome. ;O avanço da inflação reduz o poder de consumo. Os juros vão continuar subindo e os débitos ficarão mais caros;, analisou Luiz Rabi, economista do Serasa Experian.

Somado à alta dos preços e ao crédito encarecido, o desemprego será o principal desafio para quem está disposto a renegociar as dívidas. O brigadista Ricardo Pereira dos Santos, 37 anos, foi dispensado em dezembro e, até o momento, não conseguiu retornar ao mercado de trabalho. As mensalidade da faculdade, da moto e do cartão de crédito, em atraso desde fevereiro, somam mais de R$ 1,3 mil. ;Quero arrumar logo um serviço para não deixar os débitos acumularem. Se não, vai virar uma bola de neve e, aí, a situação vai ficar mais complicada;, disse.

Tenho consciência de que muitas pessoas foram demitidas nos setores da indústria e de serviços. Não quero entrar na lista de dispensados;
João da Silva Vidal,
eletrotécnico




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