"Um sonho possível"

"Um sonho possível"

Único ginasta brasileiro a conquistar o ouro olímpico, o paulista pretende puxar o "bonde dos meninos" para que o país tenha, pela primeira vez, uma equipe masculina completa nas Olimpíadas

Maíra Nunes
postado em 20/06/2015 00:00
 (foto: Nelson Almeida/AFP - 3/5/15)
(foto: Nelson Almeida/AFP - 3/5/15)


Até Arthur Zanetti subir no lugar mais alto do pódio nas Olimpíadas de Londres-2012, o país relacionava ginástica artística com a prova de solo ; muito em função de Daiane dos Santos, com o famoso Brasileirinho. O primeiro ouro olímpico da modalidade, porém, veio graças às argolas, e por meio de um rapaz, na época, com 22 anos. Agora, aos 25, Zanetti vai além das metas pessoais. ;Puxando o bonde dos meninos;, ele visa ajudar a classificar, pela primeira vez, uma equipe masculina completa do país às Olimpíadas.

Para levar todos os cinco ginastas possíveis ao Rio-2016, o Brasil precisa terminar entre os oito primeiros no Mundial de Glasgow, marcado para novembro. E não faltam bons resultados para que a confiança do campeão mundial de 2013 esteja em alta. Após a consagração nas últimas Olimpíadas, o ginasta de São Caetano do Sul, interior paulista, perdeu apenas duas competições: ficou com a segunda colocação tanto em uma etapa da Copa do Mundo de 2013, quanto no Campeonato Mundial de 2014.

Tudo faz parte da pressão que sofre um campeão olímpico, mas não chega a assustar Zanetti. ;Depois que ganhei o ouro em Londres-2012, todos os resultados que vieram foram lucro;, alivia. Controle emocional que certamente causa temor em qualquer adversário. A calma e a tranquilidade vistas durante os campeonatos, no entanto, são trocadas por um perfil bem mais bravo, até nervoso, e com muito apetite de acertar. ;Sou duas pessoas diferentes: uma quando estou nos treinos e outra na área de competição;, assume. Confira a entrevista com o ginasta.

A ginástica começou a chamar mais a atenção do Brasil com Daiane dos Santos e a equipe
feminina. Agora, é a delegação masculina que vive a era de ouro?
No começo, a ginástica feminina tinha um destaque bem maior mesmo, mas hoje não mais. Os meninos viram que era um sonho possível levar uma equipe completa para as Olimpíadas. A cada ano, o número de atletas com bons resultados vem aumentando. Posso dizer que meus resultados serviram de exemplo para um monte deles, assim como eu tinha o exemplo de outros. Para cumprir nosso objetivo, precisamos ficar entre os oito no Mundial, e ficarei muito feliz.

A etapa da Copa do Mundo de São Paulo, em maio, serviu como um termômetro para os Jogos do Rio, por ter sido em casa. Como avalia a postura dos ginastas nacionais?
Como a ginástica está ganhando popularidade no Brasil, a torcida foi em peso ao evento de São Paulo. E os brasileiros torcem muito diferente do restante do mundo. Mas é uma diferença boa, eles querem motivar e vibram mesmo. Diante disso, o comportamento e a atitude da equipe dentro da área de competição foram excelentes. Cada um soube se portar muito bem tanto diante dos adversários, quanto em relação ao público, e conseguiu trazer os resultados esperados.

Você fez a maior pontuação da sua carreira na última etapa da Copa do Mundo, justamente em São Paulo, com 16,050, superando a nota do ouro olímpico. Ainda dá para melhorar?
É uma série que eu já faço há um tempo, que está bem encaixada e me sinto muito bem de fazer. Mas dá para consertar uns errinhos. Sei que é impossível fazer tudo 100%, mas sabemos que sempre dá para melhorar um pouquinho. Acho que daria para melhorar aquela nota, sim.

Quais são as expectativas para as Olimpíadas do Rio e como está a preparação da parte psicológica?
É o sonho de todo atleta conquistar a medalha olímpica em casa, e pretendo aproveitar essa oportunidade. A gente trabalha com uma psicóloga semanalmente há oito anos, em São Caetano. Podemos dizer que o mental é essencial dentro da competição. A família ajuda bastante, principalmente no início da carreira, mas chega certo momento que só um profissional da área consegue ajudar realmente.

Quer dizer que você tem dois perfis distintos quando está no treino e nas competições?
Sou praticamente duas pessoas diferentes. No treinamento, sou um cara mais nervoso e sério. Quero treinar e acertar aquele exercício. Se coloco um objetivo e não alcanço, saio bravo. E o cara da área de competição é outro. Entro calmo e muito focado. Lá, só penso que tenho que fazer certo uma vez, uma vez certa é o que basta. Tem de estar bem concentrado.

Como é o Zanetti fora do ginásio?
Sou um cara bem tranquilo. Gosto de ficar com minha namorada, com a família e com a minha cachorra. Gosto de assistir a um filme. Prefiro fazer coisas mais caseiras, até para descansar quando não estou treinando.

Você ficou com o vice-campeonato no Mundial de 2014 e criou-se uma preocupação do que teria acontecido. Como lida com a pressão de ter de ser o primeiro?
Lido tranquilamente com toda a pressão que existe sobre mim. Como meu técnico me diz, depois que ganhamos o ouro em Londres-2012, todos os resultados que vieram foram lucro. A gente sempre quer dar o melhor, mas não estamos mais presos aos resultados ou em ter de demonstrar para todos que estou em boa fase sempre.

Como é a rivalidade com o chinês Yang Liu, que venceu você no Mundial de 2014? E quais são seus principais adversários nas argolas?
Rivalidade sempre vai ter quando estiver dentro da área de competição, faz parte do esporte de alto rendimento. Quando ele (o chinês Yang Liu) está na disputa, a gente sempre tem de ficar esperto, porque é um ginasta bem talentoso. Tem que saber respeitá-lo. Mas falar de nomes de atletas como principais adversários é complicado. Com certeza, os representantes mais fortes, hoje, são de China, Rússia e Grécia.

Após ganhar o ouro olímpico, em Londres-2012, você fez muitas críticas à estrutura da ginástica no Brasil. Como está atualmente?
A estrutura demorou um pouco a chegar, não foi de imediato, mas posso dizer que hoje os clubes têm uma estrutura ótima e que a maioria dos ginastas está bem equipada. Com os resultados do Brasil e os Jogos do Rio, viram que seria mesmo essencial ter novos aparelhos para a gente treinar. E, claro, tendo um bom lugar para trabalhar, com bons aparelhos, você consegue se preparar dentro do país, perto da família, o que é muito bom.

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