Márcio Cotrim

Márcio Cotrim

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postado em 31/10/2015 00:00


Caminhadas circenses


O habitante de Brasília sofreu muito nos tempos heróicos da construção da cidade. Pisou vermelhão, foi sufocado por poeirão, patolou na lama.

Habitava um canteiro de obras. Na seca, o vento cor de tijolo tingia-lhes as roupas de fora e de dentro. Na chuva, o pacato cidadão se transformava em criatura pegajosa, repulsiva.

O negócio era sair das obras, que subiam por toda cidade e se meter debaixo do chuveiro. Sapatos, jamais. Botas, somente botas, em grosseiro desfile. Nem pensar na delicadeza de um fino salto alto ou na descontração de uma sandália de dedo. Triste o destino dos primeiros pés brasilienses.

Mas a poeira assentou, a cidade se pavimentou, se ajardinou. O vermelho deu lugar ao verde exuberante, hoje louvado por todas as gentes. As áreas verdes estabeleceram excelente padrão, até para níveis internacionais. Feias na seca, entre maio e setembro, com a chuva logo recuperam o viço e nada ficam a dever ao exigente rigor britânico, modelo em gramados e jardins.

Não nos limitamos, porém, a uma extasiada contemplação do verde. Temos que caminhar pela cidade, seja em busca de pão e leite, do chope, da namorada, de nutrição, de oração. Ao praticarmos esse elementar trânsito individual, andando daqui para ali, constatamos desleixo que desestimula nosso passeio. Se somos tangidos ao asfalto, carros, caminhões, ônibus, tratores, motos e carroças puxadas por erráticos eqüinos passam zunindo por nossas ilhargas. Vem o medão.

Como seria gostoso poder caminhar em paz por Brasília! Mas para caminhar, convenhamos, é preciso haver caminho e aqui não são muitos os caminhos de caminhar e, quando existem, muitas vezes estão destruídos por irresponsáveis, dentre os quais o próprio GDF, que fecha os olhos para agressões das carrocerias de seus pesados veículos de serviço.


Todo brasiliense que se preze gostaria de caminhar sobre boa calçada. Lisa, ampla, plana, de cimento, pedrinhas portuguesas, ardósia, pedra de São Tomé, de Lagoa Santa ou de Pirenópolis, tanto faz. Mas que existam, e em profusão, e bem conservadas, elementar demonstração de civilidade e interesse pela coisa pública.

Nesse contexto, salta aos olhos a necessidade de uma categórica política oficial de construção de calçadas. Em certos lugares isso, além de esteticamente importante, é imposição de segurança.

Um deles, por exemplo, é a pista que vai da Vila Planalto ao Palácio da Alvorada, cada vez mais movimentada pelo surgimento de um pólo turístico graças à implantação de novos hotéis. Há pessoas que adorariam fazer sua caminhada tranquila por ali mas são obrigadas a andar em zig-zag, têm que entrar pelo mato com motores roncando nos seus calcanhares! Que o diga meu apreensivo amigo Vitório Melo, morador naquelas bandas.

Como grande parte da cidade ainda não tem calçadas, caminhar continua sendo perigoso exercício de equilibrismo. Ao caminhante, as seguintes alternativas: o asfalto, a grama ou o meio-fio. Em outras palavras: o risco de vida, a terra ou a prática circense.

Dentre os que preferem a última opção, há até os que, gozadores, pensam em valer-se de varas longas e transversais, como aquelas usadas pelos trapezistas, para melhor garantir equilíbrio...

Enfim, vamos ao ponto: a cidade exige mais calçadas. Nada mais lógico para integrar o ser humano ao parque em que ele vive e curte a vida...

"Você avalia a qualidade de vida de uma cidade pelo tamanho e a condição de suas calçadas para pedestres"
Marcos Vasconcelos, arquiteto e urbanista

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