Márcio cotrim

Márcio cotrim

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postado em 28/11/2015 00:00





Sina de garçom

Há ocupações humanas fadadas à submissão. Quem as exerce se coloca, de forma incondicional, a serviço de terceiros. É inegável o caráter humílimo do ofício do coveiro, do lixeiro ou do limpador de privadas públicas, mas claro que sem eles estaríamos sujeitos a epidemias e imersos em detritos orgânicos. Nessa linha, sempre me chamou a atenção a tarefa cumprida pelo garçom.

Ele chega ao local de trabalho como um transeunte qualquer, passa pelo vestiário e se paramenta a rigor. Mune-se de bloco e caneta esferográfica, apanha o cardápio e dá o ar de sua graça no salão principal do estabelecimento.

Oferece-se a pessoas cheias de fome. Propõe alternativas líquidas e sólida para a refeição. Defende a sugestão do chefe. A quem pergunta como estão os morangos, responde convicto: Foram colhidos hoje cedo, estão deliciosos.

Não se defende das queixas que recebe. Os pratos encomendados, se mal preparados, geram críticas não raro em altos brados e são devolvidos sem contemplação. O protesto é contra o garçom, e não contra o cozinheiro, o principal responsável pela lambança.

E a conta? Ai do garçom se ela for conferida por algum espírito beligerante e, ainda por cima, se estiver errada! Preserva-se o lombo do caixa que cometeu o equívoco, mas se desanca o garçom sem dó nem piedade.

Terminado o expediente, o moço está exausto e frustrado. Em dia de movimento intenso, vê-se à mercê de pedidos mal formulados, cheios de dúvidas e ameaçadoras exigências: ;Manda caprichar no molho, vê lá!”, ;Quero o filé bem passado mesmo, ouviu?;, ;Não posso ver espinha de peixe;, ;Diga lá dentro que não suporto gordura na picanha;, e outras recomendações grosseiras do gênero gritadas por crianças, galalaus desocupados e sádicos em geral. Um confuso coro que o pobre garçom tenta decorar ; se não, já sabe o xingamento.

Caras amarradas com a comida que veio, um fiapo de cabelo no meio do arroz, a demora no atendimento, o preço do camarão, tudo desaba na cabeça do garçom, que nada pode fazer para resolver tais problemas. Mas é ele quem paga o pato ; o pato e outros bichos, dependendo do humor do patrão.

Outras vezes, o garçom ainda passa pelo dissabor de, após servir mesa farta e alegre, ver os comensais saírem desabalados porta afora sem pagar a conta e ainda rirem dele do outro lado da rua. É demais, convenhamos.


É servir, sofrer, cultivar alguma efêmera amizade e ser humilhado. O cliente quer ser atendido em suas excentricidades. Jamais criticar o ridículo de misturar peixe com goiabada e macarrão. Sim senhor, por que não, há quem goste, eis uma opção singular, e lá vai o rapaz pela vida afora despersonalizado e servindo a uma humanidade estúpida e insensível.

Rola a festa na embaixada. Gente fina, gostosos canapés, bebida rara. Fala-se baixo em frívolas conversas, todos se conhecem, os assuntos são os mesmos de anteontem e de depois de amanhã.

De repente, um estrondo. Há gritos, alguns deixam cair o copo, princípio de pânico, ninguém entende o que possa ter acontecido. Seria uma bomba, mas na embaixada de um país tão neutro?

A uma voz mais alta, todos abalam para um canto do salão. Lá se vêem diante da cena patética. Estatelado no chão, coberto de bebidas e patês, lá está um dos garçons que serve à recepção.

Deu-se que o rapaz, coitado, vinha trazendo sortida bandeja e não percebeu um pequeno degrau em seu caminho. Desabou com todo o seu equipamento e acabou produzindo rumor tão espetacular quanto o efeito sonoro dos pratos no grand finale da Alvorada de Carlos Gomes.

Tudo muito constrangedor. Se o garçom já passa a vida humilhado pelos bares e restaurantes da vida, que dirá estendido ao solo, exposto ao ridículo de censores incomodados em interromper a conversa por causa de um reles episódio de incompetência no trabalho? Houve educadas evasivas, que ;isso acontece;, mas não faltou o desdém. Onde já se viu perturbar a suavidade de um ambiente de tanto gosto, que despautério!

O pobre garçom, recompondo-se do assombro, tratou de recolher os cacos e os restos das iguarias. Apenas eu me apresentei para ajudá-lo a levantar-se, pois o resto do grupo rumara para longe da cena deprimente.

Fiquei conversando com meus botões enquanto o garçom se preparava para retornar ao salão e reiniciar a jornada. Quanta hipocrisia um pequeno fato como esse revela. É nessas horas que se revigora a convicção de que quanto mais conhecemos os homens, mais admiramos os cães. . .


"Democracia é quando eu mando em você. Ditadura é quando você manda em mim"
Millor Fernandes

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