Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

Adote uma pirâmide

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 17/02/2016 00:00
A pirâmide do Teatro Nacional lembra os templos egípcios, maias e astecas. Mas ela é uma pirâmide moderna, não foi criada para reverenciar os mortos, mas sim para celebrar o futuro. Talvez um futuro que já aconteceu, como disse Clarice Lispector. Niemeyer tomou os monumentos egípcios apenas como ponto de partida. A pirâmide futurista é vazada pela luz dos trópicos, filtrada por amplos painéis de vidro, pontilhada de jardins, encimada por um restaurante panorâmico, desdobrada em múltiplas salas de teatro, interligadas por túneis como um labirinto.

Com certeza, se Jorge Luis Borges visitasse seus desvãos, devidamente munido de um fio de Ariadne, entraria em estado de alumbramento. Por mais estranhamento que o prédio possa provocar, Niemeyer não o concebeu como um pré-moldado que aterrissasse no Planalto em voo de disco voador. Ele imaginou a pirâmide futurista em perfeita conexão com a espacialidade aberta de Brasília: ;As pirâmides do Egito talvez não fossem tão belas e monumentais sem os espaços horizontais sem fim que as realçam e modificam conforme a luz do dia;, escreveu Niemeyer. ;Lembro uma fala do poeta Rainer Maria Rilke: a planície tudo engrandece.;

O teatro toca o céu como se isso também fosse planejado por Niemeyer. É uma obra aberta, em parceria com o sol, pois se renova a cada instante pela incidência da luz nos relevos inventados por Athos Bulcão, que cria efeitos cinéticos surpreendentes.
O livro Teatro Nacional ; forma e performance, de Celso Araújo (ITS) registra que o artista plástico Júlio César Lopes enfrentou o desafio de encontrar os relevos de ambas as fachadas do Teatro Nacional, compostos por Athos Bulcão. Garante o performer, sempre falando em números aproximados, que do lado da fachada sul, que dá para o Eixo Monumental, são 1.698 relevos e, na fachada norte, voltado para o Setor Bancário, são 1.693.

A pirâmide de Niemeyer é, em si mesma, cenário de uma grande ópera aberta no espaço. Mas o teatro não se limita a ser um espetáculo arquitetônico. Na curta história de 50 anos, o espaço foi sacralizado por performances memoráveis de Claudio Santoro, Cássia Éller, Rosa Passos, Dulcina de Moraes, Antonio Gades, Kazuo Onno e Legião Urbana, entre outros. Eles injetaram a alma da arte no concreto. Lembro de João Gilberto chegar à Sala Villa-Lobos com quase uma hora de atraso e justificar, seriíssimo: ;Hoje tinha jogo do Botafogo;.

De descaso em descaso de sucessivos governantes, a pirâmide do Teatro Nacional se reduziu à condição de ruína e de monumento do desamor à cultura, encravado no centro da capital do país. Os que ganharam tanto com Brasília poderiam retribuir um pouco do que amealharam e deixar algum legado para a cidade. Eles têm recursos técnicos e grana para fazer isso. Com certeza, a situação não foi criada por esse governo, mas é uma vergonha para Brasília. Adote uma pirâmide, só um pouquinho de proteção ao teatro abandonado.

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