Pedido de prisão para diretores da Samarco

Pedido de prisão para diretores da Samarco

Peritos concluem que rompimento de barragem em Mariana ocorreu por uma sucessão de falhas e polícia indicia sete pessoas

» PAULO HENRIQUE LOBATO » JOÃO HENRIQUE DO VALE
postado em 24/02/2016 00:00
 (foto: Corpo de Bombeiros/Divulgação
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(foto: Corpo de Bombeiros/Divulgação )


Belo Horizonte ; A Polícia Civil indiciou e pediu a prisão preventiva de sete pessoas ; seis diretores e gerentes da Samarco e um engenheiro da empresa de geotecnia VogBR (veja quadro) ; pelo estouro da Barragem do Fundão, em Mariana (MG), em 5 de novembro de 2015, considerado um dos maiores desastres socioambientais da história do Brasil. No inquérito encaminhado ontem à Justiça, os peritos concluíram que a represa se rompeu por uma sucessão de falhas que causaram a chamada liquefação, processo em que o material acumulado passa do estado sólido para o líquido.

Na prática, os especialistas afastaram a possibilidade de que o vazamento de quase 34 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério tenha acontecido em razão de um acidente, como eventual abalo sísmico na região. A mineradora e suas duas controladoras, a brasileira Vale e a anglo-australiana BHP Billiton, são alvo de outro inquérito da Polícia Civil, que apura crimes ambientais e deve ser concluído até 22 de março. Em janeiro, a Polícia Federal indiciou seis diretores e gerentes da Samarco e a VogBR por crime ambiental.

;A previsibilidade da ruptura era enorme;, disse o delegado Rodrigo Bustamante, que ontem apresentou o inquérito aos deputados da Comissão Extraordinária de Barragens da Assembleia Legislativa. O investigador indiciou cada réu pelos 19 homicídios. O crime, com dolo eventual (quando se assume o risco), tem pena prevista de 12 a 30 anos. ;Todos se omitiram em relação aos eventos. A figura do presidente da Samarco (Ricardo Vescovi) é decorativa? Não, não é;, disse o delegado. A perícia apurou que as mortes ocorreram por soterramento, afogamento ou politraumatismo. Os réus também vão responder pelos crimes de inundação e poluição de água potável. Quase 100 pessoas foram ouvidas no inquérito, que tem 13 volumes e 2.432 páginas.

Erros

Segundo a investigação, a liquefação ocorreu no lado esquerdo da barragem, no local onde foi feito um recuo no eixo da represa. O processo que mudou a substância do estado sólido para o líquido foi resultado de pelo menos sete fatores, no entendimento dos técnicos. ;Fundão estava com algum tipo de problema e esse problema não foi percebido ou foi ignorado;, afirmou o perito Otávio Guerra Terceiro.

Uma das falhas foi a alta saturação dos rejeitos arenosos depositados na barragem, ;não apenas daqueles depositados sob recuo do eixo da barragem, cujo nível de água no interior atingiu a elevação aproximada de 878 metros, mas também de rejeitos arenosos depositados no restante da represa, em virtude da existência de fluxo subterrâneo de água e de contribuições de nascentes no entorno;.

Falhas no monitoramento contínuo do nível de água também ajudaram na liquefação. Outra causa foi o defeito nos chamados piezômetros, equipamentos que ajudam a monitorar a segurança na barragem. ;Só tiveram medições até 26 de outubro (10 dias antes do desastre). Desde agosto/setembro, estava ocorrendo interferência nos sinais dos equipamentos de funcionamento automático, gerando dados duvidosos;, disse o perito.

Ele acrescentou que outra falha foi o número insuficiente de piezômetros. O aumento acelerado na altura da barragem (alteamento) também favoreceu a liquefação, diz a Polícia Civil. Em média, calcularam os peritos, a elevação foi de cerca de 20 metros de altura por ano, o dobro do recomendável. ;Nos dois últimos anos, os alteamentos foram realizados a uma taxa anual muito superior à recomendada na literatura técnica, que é de no máximo 10 metros de altura;, disse o perito. Por fim, contribuíram o assoreamento do Dique 2, o que facilitou a infiltração de água, e a deficiência no sistema de drenagem.

Em nota, a Samarco voltou a considerar o rompimento como um ;acidente; e classificou como equivocado os indiciamentos de seus diretores e gerentes ; todos estão licenciados. ;A empresa analisará cuidadosamente as conclusões apresentadas pela Polícia Civil e reitera que continua colaborando com as autoridades competentes. O acidente com a barragem foi um episódio que causou extrema consternação à Samarco.;

Os indiciados
; Ricardo Vescovi de Aragão, diretor-presidente da Samarco (licenciado)
; Kléber Luiz de Mendonça Terra, diretor-geral da Samarco (licenciado)
; Germano Silva Lopes, gerente-geral de Projetos da Samarco (licenciado)
; Wagner Milagres Alves, gerente de Operações da Samarco (licenciado)
; Wanderson Silvério Silva, coordenador técnico de planejamento e monitoramento da Samarco (licenciado)
; Daviely Rodrigues da Silva, gerente de Geotecnia e Hidrogeologia, coordenadora de Operações de barragens da ; Samarco (licenciada)
; Samuel Santana Paes Lourdes, engenheiro responsável pela declaração de estabilidade da Barragem de Fundão, da empresa VOGBR


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Quantidade de homicídios a que cada denunciado responderá pelo desastre em Mariana

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