A saideira do Black Sabbath

A saideira do Black Sabbath

Banda comandada por Ozzy Osbourne chega ao fim em 2016. O último disco de inéditas, The end, acompanha o clima de despedida. Em Brasília, fãs comentam legado do grupo britânico, que comemorou 45 anos

» Rebeca Oliveira
postado em 24/02/2016 00:00
 (foto:  Kevork Djansezian/AFP - 27/1/14)
(foto: Kevork Djansezian/AFP - 27/1/14)







"O começo do fim;. Foi assim que o Black Sabbath anunciou a última tour (com previsão de desembarcar em dezembro no Brasil), logo depois de completar 45 anos de estrada, no ano passado. Mas esqueça o tom de melancolia. A ideia de Ozzy Osbourne, Tony Iommi e Geezer Butler é fechar ;o último capítulo do último volume da incrível história; da banda de heavy metal em cima dos palcos, com vigor, euforia e certa polêmica, se preciso for, características pelas quais ficaram conhecidos ao longo das quase cinco décadas de história. Para isso, lançaram também um EP com quatro faixas inéditas chamado The end, vendido exclusivamente nos bastidores dos shows, que estão agendados até o fim do ano, sem datas oficialmente confirmadas em solo brasileiro.

Na turnê, os três membros originais não estão acompanhados por Bill Ward, com quem tiveram problemas judiciais. Na bateria, o americano Tommy Clufetos o substitui. A falta do personagem fundamental na história dos britânicos não ofusca a performance, considerada pelo grupo a maior produção de toda a sua história. As razões para o fim do Black Sabbath começam com a idade avançada de Ozzy, Tony e Geeze ; os dois primeiros com 67 anos, e Geezer com 66 anos.

A razão maior, entretanto, foi o câncer em estágio avançado de Tony Iommi, que apressou a turnê final da banda de Birmingham. ;O cirurgião me disse que não espera que o câncer vá embora. Há 30% de chance de que isto aconteça, porém o mais provável é que ele volte a qualquer momento. Vejo a vida de forma diferente agora. Posso ficar aqui por mais 10 anos ou apenas por mais um ano. Eu não faço ideia;, contou o guitarrista ao jornal britânico The Daily Mirror.

Acidente
Em geral, vários são os motivos para o fim de uma banda. Dois são mais frequentes: briga de egos ou mortes precoces. Os ;caipiras; de Birmingham preferiram se despedir antes que outro final se fizesse inevitável. O passo programado difere do início da carreira, quando não faziam ideia de que mexeriam definitivamente com as estruturas do rock;n;roll. Em entrevistas e biografias, os integrantes do BS não se cansam de dizer que não sabiam o que estavam fazendo.

No início, Tony Iommi e os colegas não imaginavam que criariam um estilo. Ele mesmo chegou ao modo peculiar de tocar guitarra de maneira acidental, depois de perder as pontas de dois dedos numa prensa de metal na sondagem industrial em que trabalhava. Considerado pouco técnico no início, Iommi foi celebrado anos mais tarde. Assim como os amigos, rechaçados no instante em que surgiram na cena roqueira, com visual e letras de tom macabro, quando ainda se respirava a atmosfera paz e amor dos anos 1960.

De importância incomensurável para o surgimento e consolidação do heavy metal, a banda conseguiu se sobressair no período em que o rock não vivia seus melhores dias. Quando lançaram o primeiro álbum, homônimo, e Paranoid, com seus hits enfileirados um atrás do outro, os Beatles chegavam ao fim. Na mesma década de 1970, perdemos Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison de overdose.

Os roqueiros sobreviveram ao ambiente inóspito com o som pesado, funesto e assustador. Um reflexo das guerras, da pobreza extrema, da violência e demais mazelas que o mundo vivia. Resistiram, também, a sucessivas mudanças de formação. Ao longo das quase cinco décadas de carreira, passaram pelo Black Sabbath nada menos que oito vocalistas e 25 músicos.
Legado
Em Brasília, fãs e músicos do Sabbath se misturam no mesmo balaio. São dezenas de admiradores que, inspirados pelos marcantes solos de baixo de Geezer Butler, por exemplo, decidiram montar a própria banda. Caso de Cássio Portella, da Degola, grupo brasiliense em que toca com Victor Hormidas (bateria), Flávio Arrais (vocal) e Wa Farias (guitarra) há quatro anos. ;É o fim de uma era, mas o legado continua vivo em todos nós que ouvimos e somos diariamente influenciados, de uma forma ou de outra, pelo som que fizeram e fazem até hoje;, afirma Cássio.

;Talvez o grande mérito da música do Black Sabbath é fazer soar assustadoramente simples riffs geniais e letras que escancararam a realidade nua e crua;, define Carlos André Cascelli, da banda Slug, outra de formação candanga, mas com toque britânico estampado na sonoridade.

Com tanto mérito, é difícil não refletir se o fim da banda representará uma queda no cenário do metal. ;Só temos uma coisa a perder: a chance de tocar músicas inéditas da banda. Afinal, em termos de legado, o Sabbath já perpetuou sua coroa há muito tempo;, acredita Lucas Maia, vocalista e tecladista da banda Sonocracia, que também imortaliza os riffs do Sabbath pela capital.

Percepção compartilhada por Caio Duarte, frontman da banda Dynahead, formada há 12 anos de olho no som dos sessentões. ;É muito difícil medir a importância do Black Sabbath, não somente para o heavy metal, como para toda a cultura do século 1920. A subversividade ocultista da banda criou uma nova estética tanto sonora como visual, que inspirou artistas que vão do cinema até a moda e as artes visuais;, afirma.

;A cena brasiliense deve muito não só ao Sabbath como a tantas outras bandas e artistas que ajudaram a moldar esse som obscuro que a gente tanto gosta;, diz Caio. ;O metal é possivelmente o gênero musical com mais adeptos pelo mundo. É uma energia que fervilha no submundo, que conforta e dá uma identidade a livres-pensadores, rebeldes e marginalizados ; e que talvez não existiria não fosse os senhores de Birmingham;, acredita o músico.



Os imperdíveis

Black Sabbath
Para Lucas Maia, da Sonocracia, não há dúvidas quanto ao disco fundamental na biografia do Black Sabbath: o primeiro LP, autointitulado Black Sabbath. ;Apesar da discografia farta de clássicos como Paranoid e Sabbath Bloody Sabbath, foi o de estreia que criou o mito;, defende. Caio Duarte, da banda Dynahead, concorda com o músico. ;Não é necessariamente o favorito de todos, mas foi um disco profundamente inovador e revolucionário. Woodstock tinha acabado de acontecer e tudo era paz e flores, até que surgiram quatro ingleses com roupas pretas, tocando músicas lentas, pesadas e com temáticas perturbadoras;, explica.

Paranoid
;Conseguimos apontar vários discos com músicas representativas que de alguma forma nos influenciaram, mas os dois primeiros álbuns (Black Sabbath e Paranoid) são os que eternizaram o maior números de clássicos de que gostamos em comum;, resume Carlos André Cascelli, da banda Slug.

Black Sabbath vol. 4
;Difícil decidir, pois vieram fases bem diferentes de que todos gostamos, mas creio que o que ficou na memória de todos foi o Black Sabbath vol. 4;, de

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