A criança acima de tudo

A criança acima de tudo

» DIOCLÉCIO CAMPOS JÚNIOR Médico, professor emérito da UnB, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, acadêmico titular da Academia Brasileira de Pediatria e membro da Diretoria Executiva do Global Pediatric Education Consortium (PEC). E-mail: dicamposjr@gmail.com

postado em 24/06/2016 00:00

A sociedade humana tornou-se presa fácil do desatino. Deixou-se contagiar pelos interesses menores que se contrapõem à sobrevivência do processo civilizatório. Os valores éticos e morais, que se anunciavam como virtudes indispensáveis à evolução da espécie animal a que pertencemos, desaparecem. Os componentes comportamentais que passaram a prevalecer mundo afora são o individualismo e o imediatismo. Logo, a falta de educação está sendo progressivamente globalizada.

Os resultados dessa grave decadência são nítidos. A paz é hoje um raquítico sonho e a violência uma poderosa realidade. Assaltos, roubos, chacinas, estupros, homicídios, delinquências diversas e virulentos distúrbios mentais são metástases do câncer maligno que afeta a humanidade, com o risco de levá-la à fase terminal de vida no planeta.

A solução inadiável para evitar o trágico desfecho que se esboça é a mudança do modelo de sociedade. A encruzilhada está posta. A saída é única: uma educação de qualidade, fundada nos princípios morais e éticos a serem revigorados. Para tanto, o individualismo precisa ser desconstruído nas próximas gerações e o imediatismo não pode mais prosperar, sob pena de empurrar a tudo e a todos para o precipício. E a medida mais eficaz para desencadear as transformações a serem promovidas é reverter o consumismo imposto à população que sobrevive, a duras penas, no planeta Terra. Significa desfazer o fascínio do ter a fim de que se recupere a benesse do ser.

Para que tudo isso, de fato, aconteça, o valor da criança há de ser reconhecido. É inegociável. Se não for devidamente respeitado, a história da humanidade estará com os dias contados. Com efeito, a maior vítima desse catastrófico descalabro a que chegamos, sob a ilusão de discutível progresso, é o ser humano que vem ao mundo sem saber como nem porquê. Nasce e cresce definido como sujeito de direitos, mas, na verdade, não passa de mero objeto, acintosamente negligenciado, usado e abusado, à exaustão, pelos adultos. A infância é a fase de vida dotada da mais alta capacidade cognitiva. Requer saúde plena, que supõe ambiente seguro, aconchegante e estimulante.

A criança é quem mais perdeu com a desastrada metamorfose social que, nos tempos modernos, só faz reforçar a animalidade da espécie. A decomposição do núcleo familiar, base do regime econômico em vigor, ignora os ritos autênticos e insubstituíveis para o crescimento e desenvolvimento saudáveis, que só podem se dar na fase infantil da vida. A criança passou a ser literalmente depositada nas instituições que substituem o ninho de afeto materno e paterno em que deveria viver nos primeiros tempos de sua existência.

Por outro lado, o adensamento demográfico das cidades roubou praticamente todos os espaços urbanos indispensáveis ao bem-estar físico, mental e social da infância. Os novos seres humanos, ao deixarem o útero materno, passam a ser confinados em diminutos recintos que não lhes permitem a adequada expansão de sua criativa originalidade potencial. Não se deslocam caminhando ativamente para a escola, como ocorria nos velhos tempos. São hoje transportados em veículos automotores, dentro dos quais restam às vezes esquecidos e condenados à morte pelo mecanismo da insolação.

Para moldar novas gerações nos desvarios do consumismo, de interesse puramente econômico, as empresas desrespeitam os seres pueris, convertendo-os em bebês ou crianças propaganda, cometendo, impunemente, incontestável forma de abuso, até mesmo de trabalho infantil. Ademais, longas horas em que são expostos ao mundo televisivo e eletrônico não deixam de ser um precoce condicionamento comportamental. São momentos marcados por imagens de todas as formas de violência, que incluem uso de bebidas alcoólicas e a erotização precoce, resultando em absurdo processo de banalização de práticas as mais condenáveis.

A drástica redução da taxa de natalidade é outra característica do modelo econômico imediatista em vigor. Se essa taxa não retornar ao nível minimamente indispensável à sobrevivência da espécie, a sociedade humana desaparecerá num futuro não muito distante. A educação de qualidade, sem vínculo com interesses materialistas, é, portanto, a saída para o renascimento da humanidade. Não deve ser assegurada apenas na escola nem exclusivamente a crianças e adolescentes. Vai muito além de meros sistemas pedagógicos. Há que ser também estendida à população adulta, por todos os meios possíveis, de forma ininterrupta, a fim de que as pessoas saibam viver em comunidade.

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